De longe se vê a pequena aglomeração na praça. Uma dúzia de jovens, divididos quase que igualitariamente entre mulheres e homens, batem palmas e lutam contra a falta de elasticidade de seus corpos e suas vestimentas na tentativa de levantar pernas, mexer braços e girar.

De longe deduzo que se trata de uma roda de capoeira de gringos e me aproximo.

O professor é um espanhol tão loiro quanto Hermeto Pascoal, e seus alunos, iguais na cor da pele, são todos europeus – não fui perguntar um por um, mas está claro. De brasileiro na roda só o berimbau (que em momento nenhum foi tocado) e o amarelo da camisa de um dos alunos, mas o touro estampado no centro da malha serve para confirmar que estamos em Salamanca e não em Salvador.

Parece ser a primeira aula, não só pela falta de intimidade dos alunos com o ritmo, mas também pela roupa usada pelos pupilos. Vestem calças jeans, jaquetas pesadas (há inclusive uma de couro no bando) e até cachecol.

O professor puxa um coro em português (com o devido sotaque) e pede que os alunos repitam o refrão. A timidez e a falta de intimidade com a língua transforma o canto em sussurro. O mestre explica que no jogo, como na vida, cada um tem seu modo de atuar. Há quem jogue capoeira sorrindo, brincando. Outros são mais sérios e compenetrados. Há também, adverte, os que usam o jogo para desafogar sua violência e maldade interior. Mas o cantar é universal: alto e com vibração. Pede empenho aos aprendizes.

Eles se esforçam, mas a ginga, aquele movimento de balanço típico da capoeira, é um obstáculo intransponível. Paciente, o professor para a classe. Mostra que o corpo, da cintura para cima, deve estar ereto, para que o jogador olhe nos olhos de seu adversário / companheiro / colega de prática. É da cintura para baixo que o corpo deve se mexer, explica.

Com o tronco firme, os braços levantados e dobrados quase que na altura do rosto, o mestre reinicia o gingado, bem devagar. “É como se fosse o Robocop, mas com o balanço do samba”. Os alunos riem, parecem ter entendido. Voltam a praticar, mas a ginga sai estranha, descoordenada. O Robocop deles ainda não conhece o samba.

A aula acaba e eu vou embora com um sorriso irônico, de certa superioridade. Mas logo meu alterego me repreende: deve ser parecido as suas (minhas) tentativas de dançar salsa.

Ridículo, mesmo, é se deixar paralisar pela vergonha e o medo do fracasso, pondero – e assim faço as pazes com o meu outro eu.

Sábado que vem estarei de novo no bar de música latina. E quem quiser fazer uma crônica sobre minha performance que fique à vontade.

Ricardo Viel escreve às segundas

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