Doce diletantismo, esse de nossa espécie, o de duvidar: condição (quiçá) elementar do humano. É que dominado o fogo e saciada a fome, faltou o que fazer aos homens. E, então, lançaram-se todos – mulheres e escravos excluídos do vocábulo – às ruas, às praças, e puseram-se, douta e bestamente, a duvidar. Da água e do fogo; da terra e do ar.

De quase tudo já se usava duvidar, quando um certo Sócrates – o grego, de existência duvidosa, não o Brasileiro – sugeriu alvo novo para a dúvida: duvida, agora, de ti próprio. E legou-nos a frase lapidar: “Conhece-te a ti mesmo”.

Pois a estrada do auto-conhecimento é poeirenta, é sinuosa. De modo que certa feita, encontrando-me na condição que o vulgo atribui ao aumentativo de Ricardo – meu nome – , vi-me, mui maiêutico, ante questão demolidora: qual será a origem da conhecida conotação atribuída ao prenome “Ricardão” – esse terror (esse “gavião”, dirá Bezerra da Silva) que ronda os maridos de nosso Brasil varonil?

Comecei pelos dicionários à mão – qual decepção. O Houaiss, pudico, ignora o termo. Tem no Aulete, mas a definição é tão precisa quanto pobre, preguiçosa: “designação para amante do sexo masculino”. Pouco.

A letra da canção de Bezerra é temerosa e safa, mas nada explicativa.

Alguém então recordará que o quadro humorístico “Primo Rico e Primo Pobre”, em que Brandão Filho, o Pobre, referia-se a um “amigão” da mulher de Paulo Gracindo, o Rico, chamado “Ricardão” – alusão velada e evidente a um “caso” da patroa. Fato: talvez daí decorra a popularização da expressão. Mas por que diabos escolheu-se justo o nome “Ricardo”?

Pecuaristas defenderão que, nos anos 70, antes da inseminação artificial, um touro batizado “Ricardão” foi utilizado para cobrir várias vacas por dia – e que daí terá-se originado a analogia. Historiadores sustentarão que a fama vem do rei inglês Ricardo, que, valendo-se do direito à primae noctis, passava na frente dos maridos – e que daí terão surgido a pecha e o temor.

A primeira tese não passa de simplória e tola. A segunda, ainda que venha a ser verdadeira, soará inverossímil: quem ousaria, naquele tempo, popularizar uma expressão pejorativa referente ao nome do rei? E outra: em se tratando de violência sexual, não seria natural que as mulheres detestassem o “Ricardão”, em vez do contrário, como reza a cartilha popular?

Até que surja o desmentido, a melhor explicação encontra-se na obra do italiano Giovanni Boccaccio, autor do Decameron. Um tal Ricardo Minútolo é personagem do conto “Catela no banho”, e vejam o que apronta:

Publicamente apaixonado por Catela, mulher casada, Ricardo passa-se por amigo da moça, fingindo ter superado seus sentimentos por ela. Faz-lhe, então, intriga, sabendo ser ela do tipo ciumenta crônica: mente a Catela que seu marido, Filipe Sighinolfo, anda se encontrando às escondidas com outra mulher. E lhe sugere que se antecipe à dita cuja num encontro marcado na alcova onde o marido estaria esperando a amante – para, então, pegá-lo em flagrante!

Mas, na hora e local marcados, quem espera, no quarto totalmente às escuras, é o próprio Ricardo, fingindo ser o marido de Catela. Tomada de ciúmes, a moça esbraveja contra o homem que pensa ser seu marido infiel, até o ponto em que o provoca dizendo: “não sei o que é que me prende que não mando chamar por Ricardo, que me amou mais do que a si mesmo e jamais pôde orgulhar-se de eu tê-lo olhado, uma vez que fosse, e não sei que mal teria havido se eu o houvesse feito”.

Ao que Ricardo responde: “Doce amor meu, não vos perturbeis; aquilo que, simplesmente amando, não pude ter, Amor [o deus], com enganos, ajudou-me a possuir. Eu sou o vosso Ricardo.”

Catela, aturdida, faz menção de fugir. Mas Ricardo a ameaça: “E vós sabeis que o povo está  [mais] inclinado a acreditar no mal que no bem e por isso mesmo é que acreditará em mim, antes de acreditar em vós.”

Daí por diante é tudo obra do inconsciente coletivo, que guiou a fama de Ricardo através de oceanos e gerações até chegar ao Brasil de nosso tempo. E aos maridões cheios de si que ainda preferirem a historinha para boi dormir da primae noctis do rei inglês, eis o arremate desolador:

“E a mulher, conhecendo então o quanto os beijos do amante são mais saborosos que os do marido, transformou em doce amor a sua dureza e, daquele dia em diante, ternissimamente o amou e, agindo avidissimamente, muitas vezes gozaram do seu amor. E que Deus nos faça gozar do nosso.”

Algúem duvida? Pois que conte outra melhor. Até lá, tremei, Bezerra.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

Anúncios