Paris tem lugares lindos, Paris tem lugares feios, feíssimos também.

O Centro Pompidou não é unanimidade, há quem goste, mas acho que a maioria odeia. Esteticamente, lembra um gigantesco motor de carro que foi tirado do capô e largado entre o Marais e o Sena.

Mas funcionalmente o Pompidou funciona: é à la fois a melhor biblioteca e o museu de arte moderna e contemporânea de Paris, além de abrigar galerias, uma livraria e um terraço candidato a melhor ponto de vista da cidade.

Me pergunto então se deveríamos condenar o que não funciona nem para ver nem para usar (um amigo disse: a beleza é a primeira das utilidades).

Um “sim” a esta pergunta faria como vítima, certamente, a Fontaine des Innocents.

A cinco minutos do Pompidou e a um da estação central de metrô, a fonte está sempre cheia de gente em volta dela – gente que passa, para, retoma o passo, mas que quase nunca para para reparar.

Pois dias desses eu reparei. Adianto que não foi uma descoberta de sua beleza, tampouco de sua feiúra: seus atrativos continuam em número tão limitado para mim que continuo a não ter opinião sobre ela (o que é pior que achá-la feia). Mesmo assim, reparei.

Reparei que se a fonte fosse retirada restaria mais espaço para andar. E a cidade teria mais pressa e menos tempo.

Que se ela fosse demolida as pessoas que param para conversar de pé por ali se sentiriam convidadas a partir, pois o papo na praça sem fonte deixaria de render.

Que se no lugar da fonte houvesse uma árvore, teriamos folhas no chão e talvez crianças brincando, ou um novo cenário para fotos.

Reparei que, se não fosse a fonte, eu não teria parado ali para pensar no valor desses lugares que não são nem esquecidos, já que poucos se lembram deles; nem são comemorados, pois não há mesmo razão; mas que nem por isso devem desaparecer, porque preenchem o nosso dia de uma vaga substância justamente quando precisamos dela – dias quando acordamos sem querer nada da vida, a não ser só ser uma pessoa a mais, sentada na praça, em volta da fonte, vendo o mundo passar.

Diego Damasceno escreve às terças

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