Coloquei a mão por debaixo da camiseta e senti uma saliência na altura do peito, no lado esquerdo. Quando passei o dedo por cima, o pequeno calombo se mostrou flácido e meu indicador entrou carne adentro, por entre as costelas, quase até o final da unha.

Não havia sangue nem dor, mas um certo incômodo. Uma daquelas pessoas que me acompanhavam – todas eram desconhecidas para mim – me disse que aquilo era perigoso, que uma veia do coração estava entupida e que se não encontrássemos um médico logo eu iria morrer.

Saímos correndo em busca de ajuda por uns corredores estreitos de paredes claras. O ar começou a me faltar e era cada vez mais difícil ficar em pé. Eu apertava meu peito com a mão direita e puxava o ar, mas o único que conseguia era tossir. Era como se alguém estivesse apertando com força meu pescoço.

Perdi a consciência e quando acordei estava deitado em uma maca. O médico com cara de boa gente se aproximou com tranquilidade e me disse que eu ficaria bem. Segurou meu pé esquerdo, procurou um ponto logo abaixo dos dedos e com uma agulha cumprida injetou um líquido verde que estava numa seringa enorme. Repetiu o procedimento no pé direito.

Senti o líquido gelado subir pelo meu corpo e uma paz tomou conta de mim. Eu não sabia se ia ficar bem ou morreria, mas tinha certeza de que aquela agonia ia acabar. Perdi de novo a consciência.

Acordei com um zumbido forte no ouvido. Tirei a camisa e procurei algum sinal, mas não havia nada no meu peito nem nos pés. Puxei o ar com força e senti que os pulmões continuavam funcionando bem.

Enquanto esperava a água ferver para preparar o café, pensei que talvez seja durante o sonho que o corpo cura – ou ao menos tenta curar – as feridas do coração. Até que chegará o dia que, de tanto remendo, já não tem mais conserto…

E antes ainda de a chaleira apitar deu tempo também de pensar que há muita coisa na vida, entre elas alguns sonhos, que, para o bem de nossos frágeis corações, não deveríamos recordar.

Ricardo Viel escreve às segundas

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