Ninguém prestou atenção no guri mirrado, com uma garrafa cheia de um líquido espumoso e um rodinho, que chegou perto da viatura parada no sinal. O policial que a dirigia só teve tempo de levantar o dedo em sinal negativo. Não queria seus vidros limpos com água suja. Ouviram-se tiros. Vidro quebrado manchado de sangue. Dois rapazes correram em direções opostas com armas nas mãos. Ninguém gritou. O guri se afastou devagar.

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Naquela semana, em outros pontos da cidade, mais ataques parecidos aconteceram. Não foi provado que eles estavam articulados entre si. Procuraram conexão com alguma organização criminosa, mas a distância entre as áreas e a inimizade entre as quadrilhas que as ocupavam deixavam claro que as ações eram desconexas. Talvez individuais. Duas semanas depois a TV e os jornais contavam as baixas policiais. Um mês depois o assunto cansou.

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Ninguém evitava sair às ruas. Os ricos tinham suas blindagens. A classe média tirou suas armas de cima do guarda-roupa e os pobres estavam no ataque. Todos temiam a todos e isso parecia ser proteção suficiente. Como em um jogo de pôquer no qual todos blefam e aumentam as apostas ao infinito. Só os policiais se escondiam. A cidade não estava em guerra, mas pichações nos muros anunciavam uma faxina.

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Tudo terminou quando um branco aleatório foi preso com algumas latas de tinta spray. Aos repórteres ele falou em revolução e citou filósofos anarquistas. Obviamente ele não tinha entendido nada. Mas foi sua versão dos fatos que chegou ao público e lançou as bases teóricas para um movimento que não existia. Os jornais trataram de divulgá-la e submetê-la à análise de especialistas em aspas.

Pedro Fernandes é o convidado especial de hoje

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