Pintava as unhas do pé de vermelho na beira da cama, fazendo que ia cair. Sonhava com tudo que devia ter e se perguntava como acabou naquele colchão de espuma com lençol furado. No dedo mindinho pensou que ainda era moça, podia muito bem sair dali enquanto era bonita. E virar puta, e fazer dinheiro, e ir atrás da vida que merecia.

Na cozinha a janta começou a cheirar queimado, esperou só pra dar mais raiva. Não aguentou muito foi desligar. Ou podia virar manicure, era um serviço bom, o dia inteiro vendo esmalte brilhante. Melhor jogar fora o arroz, de tão preto, mas o tempo não estava para mais desperdícios.

Caso é que Josemar bêbado bateu na porta com barulho, e anda tão desconfiado de tudo que foi logo gritando porque a piranha e vagabunda demorou tanto de abrir, e ralhou por ter mulher tão imprestável que não servia nem pra fazer uma comida nojenta que fosse, e logo começou a apertar seu braço, ela ainda reclamou que parasse, ia borrar a unha, mas ele não ouviu e a arrastou pra a cama pra bater melhor, e ela pensando num jeito de gritar ou correr, mas de tão cansada ficou só parada com cara de susto.

Nisso Josemar já voltava com uma faca da cozinha, e foi tudo tão rápido que nem tempo deu de ter motivos. Juntou o esmalte derramado com seu sangue próprio, e ela imaginou que se talvez vivesse, melhor ser puta que manicure. Mas logo já estava oca, como uma mesa de onde não vem nenhuma lembrança.  Os vizinhos juntaram depois que Josemar saiu correndo sem rumo pedindo socorro, e ao ver a morta berraram pega ele, é doido, é doido, pega ele, mas desde antes já era tarde.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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