Aliás, tem me incomodado o gesto de postar uma mensagem no Facebook.

Me pergunto : estou falando com quem?

No Twitter era mais fácil responder: há uma lista de pessoas que o seguem, são seus supostos leitores, e aquilo é um canal feito eminentemente para comunicação – para um dizer algo aos outros.

O Facebook, não. Ele engloba o Twitter, tem essa função, mas foi criado a partir de outras – uma delas, conectar-se a pessoas conhecidas.

Essas pessoas não seriam então os supostos leitores para quem falamos ? Não me parece.

Me parece que o que posto no Facebook – mais especificamente o que posto sem me dirigir a ninguém – está mais próximo de um ruído a mais na cidade do que uma mensagem que fatalmente encontrará um destinatário.

A lista de amigos não passaria, assim, de uma lista de candidatos possíveis a interlocutor. Ao não falarmos diretamente com alguém, não estamos falando indiretamente com todo mundo; estamos, sim, é falando com ninguém.

Estamos “pensando alto” no pior sentido da expressão: o de expulsar um pensamento da própria cabeça, muitas vezes um pensamento que não estava pronto para sair. Nesse sentido, não estamos nem falando com nós mesmos.

Isso me lembra aquela historia do “perder a oportunidade de ficar calado”. Afinal, pode ser que ela seja algo mais do que um “xepo”, como se dizia lá em Salvador. Há aí uma reflexão.

Me lembra também a “constatação” de que há crise na literatura desde o momento em que há mais escritores do que leitores.

Porque a conversa ainda existe na vida real, ainda bem. Mas parece que ela só existe marginalmente no Facebook. O que é preocupante, visto que só faz aumentar a adesão ao troço dia após dia.

Diego Damasceno escreve às terças

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