O fim de tarde tinha cheiro de café coado, cigarros fumados na mureta no fundo do quintal e inseticida em aerosol para matar as primeiras muriçocas que costumavam entrar na casa antes do anoitecer. Minha mãe dava tapas na perna e reclamava dos muruíns. A Ave Maria em uma voz masculina trazia angústia e conforto em doses iguais.

Era como se estivéssemos presos no tempo, lá no princípio, no verbo feito carne daquela canção. Pegos na armadilha da eternidade religiosa, ameaçados por um êxtase somente interrompido pelos ruídos da transmissão AM. Estávamos todos sujeitos a um tipo de paz insípida, incolor e inodora. Em vez de ser onipresente, onisciente e onipotente, Deus tinha as propriedades da água. Mas havia a certeza que aquela era uma prisão segura, então fazia-se o sinal da cruz.

A luz de fora avermelhava e dentro era substituída por uma pálida fluorescência. Alguma tia logo chegaria, esbaforida ou cabisbaixa, para falar do marido ou para ouvir minha mãe reclamar do seu. As migalhas de pão era catadas distraídamente sobre a toalha de renda manchada do almoço na qual sempre derramávamos achocolatado. Assim a tarde terminava.

Se fosse a época certa do ano dava para ouvir o canto de uma cigarra vindo do alto do coqueiro. Era feio como canto, estridente demais. Mas dizia-se sem muita certeza que ela cantava até a morte e passei a ouvi-la com mais respeito. Era um grito. Um choro. Era uma Ave Maria em língua de inseto.

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