Montevidéu não tinha nenhum traço de cinzas de vulcão, mas estava um pouco cinza de qualquer modo. Por causa da chuva, de algum frio – mas não muito – e de uma certa fuligem que se espalhava por todos os lugares. Na verdade, não era bem uma fuligem porque não se parecia em nada com poluição. Era mais um encardimento das coisas, que vinha da idade. Em Montevidéu tudo é meio velho ou velho por inteiro.

A descrição provavelmente parece um tanto decepcionada, mas não o é verdadeiramente. Talvez esperasse algo entre o Rio Grande do Sul e Buenos Aires, um barulho, um frenesi, pessoas falando alto, coisas acontecendo, modas, paqueras e agitos. Mas Montevidéu é muito quieta.

É um paradoxo interessante, com o qual não me lembro de ter me deparado antes. Não faltam coisas para conhecer na cidade, nem lugares bonitos para ir, bares legais, bons restaurantes, passeios, cafés, livrarias. Mesmo assim, ela é parada e extremamente silenciosa. As pessoas andam pelas ruas em silêncio, ou falam baixo o suficiente para que os turistas soem mal-educados quando – coisa muito comum – levantam a voz. Fica claro demais que não entraram no ritmo da cidade.

As pessoas lá parecem fazer suas coisas com calma, quietude, como se estivessem sempre refletindo. É isso. Os uruguaios, ao menos na capital, refletem. Ou assim parece. É um lugar onde a praia convida a um passeio calmo, já que sequer tem ondas, é praia meio de rio e meio de mar. O parque convida a uma caminhada em silêncio, a um pedalinho, fotos  em uma fonte. As pessoas se vêem pouco nas ruas a partir das 20h. Estão recolhidas nos bares com seus amigos, dentro das suas casas – mas as luzes nunca estão acesas – ou no Fun Fun, ouvindo tango e milonga e bebendo copinhos de uvita até a madrugada.

Até o Parque de Diversões parece ter saído de uma foto antiga – ou um Instagram desses, vai saber – ou de um trecho de filme em que o personagem se lembra de um episódio de sua infância no parque. Os sons são distantes, mesmo quando você está bem perto, as luzes não são brilhantes demais, só o suficiente.

E tem a velhice, que está em tudo. Os quartos de hotel sempre tem uma parede (ou mais) meio suja. São limpinhos, mas encardidos. Os prédios, os bares, as coisas. Parecerá desleixo se você espera que o mundo lhe seja um resort, mas não é. Acho que Montevidéu carrega sua velhice com dignidade e com alguma teimosia. Como se as coisas te dissessem: “Sou velho, sim, e você que é feio?”.

As feiras de antiguidade, lindas, cheias e abundantes na cidade, são as melhores atrações. Os sebos, os antiquários grandes e as casas pequenas que se tornam antiquários por força da necessidade. É tudo velho, encardido, silencioso e encantador. Não sei se é melancolia, tristeza ou desânimo o que faz com que seja assim Montevidéu, mas o que senti mesmo foi uma calma que te traga para dentro.

Talvez as pessoas de lá pensem diferente de mim. Uma frase em um muro pelo qual passamos à noite dizia: “Ànimo, amigos, que la vida puede más!”. Pensei no lugar onde vivo, o oposto da calmaria. Talvez em São Paulo as pessoas queiram da vida mais do que ela pode, ou pelo menos mais rápido ou maior do que ela pode dar. Talvez em Montevidéu as pessoas queiram menos.

Camilla Costa escreve às quintas

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