“… E a gente continua sonhando” é o nome do show de Milton Nascimento que já está para começar.

Sobre a mesa, uma tábua de frios e uma garrafa de vinho tinto pela metade. Ao redor, sentados, três casais distintos, de meia idade.

O marido de paletó preto deixa aparecer dois meticulosos centímetros da manga de sua camisa amarela de bolinhas roxas. Desculpa-se com sua esposa de óculos com aro cravejado de brilhantes esfuziantes: defende-se que não sabia que os assentos na platéia eram ao redor de mesas, o que obrigaria sua senhora a assistir o concerto com o pescoço girado inconvenientíssimos 30 graus a estibordo. E maquina, em voz alta, que a lógica da coisa é estimular o público a consumir as insossas carestias do bar.

Sua mulher acha um abuso. Sente-se vítima de propaganda enganosa, afinal platéia é platéia, ninguém avisou que ia ter mesa. Mas tudo bem, também não é nenhum final de mundo. Usa um cabelo preto escorrido que lhe dá contorno ao rosto ossudo sobre o qual um provocante batom vermelho arremata o brilho dos óculos. Está irritada com essa gente preconceituosa que pensa que as pessoas têm que parecer velhas e acabadas só porque já passaram dos 50. E já prevê o torcicolo.

Espirituosa, outra esposa, a de colar de pérolas (imitação?) e adereços dourados, partilha a queixa da colega de mesa e aposta que no final do show vai ter até gente na porta vendendo Gelol. Ela revela que, há uns anos, Milton Nascimento tirou uma fotografia com ela na saída do show que fez com Caetano – porque afinal, ele é cheirosinho e tem as palmas das mãos fofinhas; ao contrário de Caetano, aquele nojento, que se deixou fotografar mas não tirou foto com ela. O binóculo para ver Milton está sobre a mesa.

(De paletó marrom, seu marido não encontra espaço para falar. É o único a envergar um silêncio que porém parece, mais do que sábio, compulsório.)

Sua interlocutora é a terceira esposa, sentada à sua frente. Que, discreta em seu casaco preto, olhos detrás de aros mais sóbrios, endossa a história da amiga. Afinal, ela também aparecera na foto e, se pudesse, levaria Milton Nascimento para casa, tal qual um urso de pelúcia. Fala, em tom de voz ao alcance daquele primeiro casal, os desconhecidos da outra ponta da mesa – que a esta altura falam entre si e já não querem lá saber da conversa dos outros – que moravam em São Paulo mas fugiram para Itu, vida mais tranquila. Fugiram, mas estão felizes por estar a uma horinha de São Paulo. Fugiram, mas não fugiram.

Ela veio na cordial companhia de seu marido, de paletó cinza, que também se chama Milton. Ele ajeita-se bonachão na cadeira e, elegante, interage, comenta espontaneamente de sua cirurgia no púbis (na cartilagem que fica na ligação com o fêmur, explica), marcada para o próximo mês. Diz que já teve que remendar o menisco numa cirurgia dessas, mas que depois ficou bom de vez. Porque ele, nas horas vagas, é corredor.

Os frios da mesa ainda não acabaram. O vinho sim. Milton Nascimento entra de paletó begezinho, quase branco. “… E a gente continua sonhando” já está para começar. Com que será que essa gente sonha?

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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