Da música erudita, gosto um bocado. Um bocado grande, do tamanho de minha ignorância acerca dela. Me toca ao ponto de eu ser capaz de cantarolar trechos que me agradam, ao passo em que me é impossível associar uma música a seu autor – tanto menos identificar quem executa a dita cuja.

A alternativa que minha memória encontra para lembrar-se de músicas em geral é a associação do que ouço a situações vividas. Dou um exemplo: só não me esqueço que o Winterthema 3 de Vivaldi, executado por Haidling, é o Winterthema 3 de Vivaldi, executado por Haidling, porque o associo à cidade de Lisboa, onde descobri a canção e também onde fui muito feliz. Sei que toda vez que quiser tornar a sentir aqueles dias, bastará escutar essa música. Tanto que a apelidei “máquina do tempo”.

Mas a questão que me faço é a seguinte: por que será que gosto de música erudita mas não sei dizer o que estou ouvindo? Arrisco aqui algumas razões, por achar que ao menos parte dos leitores padecerá de mal semelhante:

1) nunca estudei. Nunca me esforcei para memorizar nomes de sinfonias ou de compositores;

2) minha memória é um emaranhado de hiperlinks desconexos, não possui (ainda?) autonomia, mas sim é miseravelmente condicionada a fornecer respostas a estímulos externos;

3) o mais grave: recentemente, descobri que estive exposto à música erudita por anos sem ter a mais remota idéia disso.

Saco da cartola um exemplo que ilustrará o item 3. Assistia outro dia ao memorável filme “Do Mundo Nada Se Leva” (You Can’t Take it With You, 1938), do diretor Frank Capra. No minuto 13, um dos personagens toca uma música no xilofone. (veja aqui, min. 2:45)

Reconheci imediatamente a seqüência sonora. Era a mesma que aparece na trilha de um desenho animado que cresci assistindo: Tom & Jerry (veja min. 5:20). Mas, mais ainda: era igual à música de fundo de muitos desenhos animados da Warner Bros (Pernalonga, por exemplo) distribuídos no Brasil. Nos anos 60 e 70, a distribuidora Cinecastro, em vez de contratar uma orquestra para reproduzir as trilhas originais, mixou um BG padrão que começava com essa música e o incluiu em centenas de animações. (veja aqui, min. 0:20) Li isso neste post do blog Arranjos Audiovisuais.

Mas era mais que isso. No filme de Capra, a mocinha que escuta a canção diz, bailando: “Adorei. É sua?” Ao que o rapaz responde: “É Chopin.”

Era a Grande Valse Brillante em Mi bemol de Chopin. Descobri que eu conhecia Chopin, apenas não sabia que era Chopin – afinal, raramente produtos da cultura de massa nos proporcionam perguntas (e sobretudo respostas) como essa do filme de Capra.

E como de um link brotam outros, descobri que os desenhos animados a que sempre assisti – Tom & Jerry, Pica-pau, Looney Tunes, Popeye etc – freqüentemente têm trechos, não raro episódios inteiros, em que a trilha sonora é de música erudita.

E eu que pensava que não sabia nada. Bobagem: investigar as próprias ignorâncias já é trabalho que chega para uma vida.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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