Maestro Aderbal Duarte Bossa Nova tem duas bocas, três braços e três mãos – duas de cinco, a outra de seis extremidades.

Maestro Aderbal Duarte Bossa Nova tem dois corpos.

Um mirrado, pura pele e osso quase. Opaco, ocupa sentado, vestido de malandro (no fundo, pudico) o centro do palco dentro da camisa branca de botão saltado. Adornado de nada, só do desenho de onda do liso do pelo que samba e lhe sobe na cara.

Encurva, entortado, o ombro dobrado por cima do corpo segundo que se lhe brota robusto da barriga, porque afinal de madeira brilhosa lisa, desenho de onda que alonga a curva do cabelo. Corpo esse sim nu, despudorado; esse sim adornado de nada de nada.

A mão esquerda de cinco pontas debulha o terceiro braço. A direita (a outra de cinco pontas, porque a mão de seis fica parada) voraz devora veloz a viola.

Maestro Aderbal Duarte Bossa Nova é ele sozinho a banda toda. É pandeiro e cavaco. E beat e balanço e baixo. Aprendeu a ser tudo no conteúdo de João – outrora espelho, ora religião (respeito: cada qual um dia elege uma sua fé). Tanto que já não lhe basta tocar: quer catequizar, traduzir na linguagem inglória da boca de cima o tanto que entendeu da outra boca em mais de trinta anos nessa história.

Tenta uma vez: “Os acordes dissonantes da música de João Gilberto remontam à música renascentista contrapontística européia”. É isso, mas não cola. Tenta duas: “João trouxe balanço para o violão; trouxe sotaque, trouxe Brasil”. Mais palatável, mas ainda não explica. Tenta três: “Não tenho como inventar nome para isso. Vou dizer o quê? Que a música de João Gilberto vem do tempo que c* tinha tampa?” Divertido, porém impublicável. Tenta quatro: “Vou tocar, mas vocês por favor cantem: ‘Um cantinho, um violão… esse amor, uma canção…'” E a audiência (parece) finalmente começa a pescar a mensagem.

Maestro Aderbal Duarte é tão Bossa Nova que anexou o estilo ao nome. Ou (tanto faz) o nome ao estilo. Fato é que transformou seu nome próprio em dois – um para cada corpo. Mas segue sendo uma figura única.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

O show Aderbal Duarte Bossa Nova acontece uma vez por mês no teatro Sesi do Rio Vemelho, em Salvador.


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