Conheci hoje o projeto A Complaint Free World, que procura convencer as pessoas em todo o mundo a começarem voluntariamente uma espécie de rehab da rabugice, com direito a pulseirinha de borracha e tudo (2005 mandou um alô) e pararem de reclamar.

“Sonhamos com um mundo em que as pessoas foquem em falar sobre como elas querem que as coisas sejam, ao invés de reclamarem de como elas são”, eles dizem no site. A ideia, que parte do bom e velho pedido pela “crítica construtiva” na comunicação humana, é bem compreensível.

O exercício de tentar ficar sem reclamar, nem que seja por um dia inteiro somente, certamente deve nos fazer compreender como gastamos energia com rancores voláteis. Pequenos, porque não são problemas incontornáveis, e inúteis, porque praguejar contra eles não servirá para nada.

Mas uma vez que você escolhe as suas batalhas, reclamar de verdade e a sério é importante, sim. Mesmo sem saber o que sugerir no lugar. O negócio é que a reclamação existe para ser um ponto de partida, e não um fim em si mesma. Por isso, apesar de bem intencionada, a ideia de propor um mundo sem reclamações me irrita, porque se coloca o ato de reclamar em um lugar que não é o seu.

Reclamar sobre qualquer coisa a sério virou sinônimo de falta de senso de humor. Como se a vida fosse Seinfeld ou uma sitcom/stand-up que o valha, e só valesse reclamar de algo se ao discurso se seguir automaticamente o som das risadas da plateia.

Se acho que a internet e, consequentemente, as conversas de pessoas conectadas ao meu redor estão ficando cheias de piadas fúteis e volta e meia preconceituosas, é porque sou politicamente correta ou me levo a sério demais. Protesto nas ruas agora tem que ser “protesto bem-humorado”, sempre. Mas confesso que estou com Arnaldo Branco, quando ele diz que o protesto bem-humorado é frequentemente inútil.

Por isso, apesar de ter achado o  Churrascão da Gente Diferenciada – que aconteceu em São Paulo após o quiproquó do metrô Higienópolis  – uma iniciativa divertida, não aderi.

Achei bem otárias as piadas sobre judeus, moradores de Higienópolis e sobre pobres (aqueles que estavam sendo defendidos) que choveram na página do evento no Facebook (E olha que assisto Family Guy. E sou fã). Brochei porque acabei enxergando, apesar das boas intenções, um bando de gente querendo brincar de pobre pra chocar a sociedade higienopolitana ou algo do tipo.

Teria achado mais honesto se as pessoas fossem lá dizendo “ei, também moramos em São Paulo, somos estudantes, profissionais independentes, jovens, velhos, ricos e pobres, e precisamos desse metrô. Preconceito não é razão pra impedir uma obra desta importância”. Teria achado melhor, inclusive, que o churrasco tivesse algo a dizer ao governo e a prefeitura de SP, que acataram a sugestão baseada no preconceito de 3 mil pessoas do bairro sem dar nem um pio. Representatividade pra que, né.

Certamente tiveram algo a dizer na hora H. Não fui à manifestação, mas acompanhei por relatos e fotos. Gostei do resultado e achei que foi importante que as pessoas da cidade, muitas da mesma classe social à qual pertencia o conjunto de moradores do bairro que estava sendo criticado, fossem às ruas dizer que não partilhavam daquela opinião.

O humor e a ironia são ótimos, lindos, essenciais em qualquer momento. Saber rir de si mesmo e das situações absurdas em que a própria sociedade se coloca é como tentar olhar-se de fora, um exercício fundamental. Mas o protesto bem-humorado também pode, talvez até deva, ser uma reclamação.

Ele tem que dizer alguma coisa, querer alguma coisa, propor alguma coisa ou achar que alguma coisa está errada como está. Senão se esgota no fim de um dia de piadas no Twitter ou em um Tumblr temático.

Tampouco me identifico com formatos mais clássicos de protesto, e confesso que tenho alguma vergonha alheia sempre que ouço slogans sérios demais. Mas isso talvez seja porque, atualmente, temos a opção de aderir uma forma um tanto arquetípica de posicionamento político, que só vai às ruas se for pra falar da ditadura em algum momento, ou ao formato pós-flashmob, que só vai à rua se for pra zoar qualquer coisa. Nenhum dos dois me enche os olhos.

Ao invés de evitar completamente as reclamações, talvez seja o caso de voltar a pensar em outras formas de reclamar. Me pergunto onde foi parar a boa, velha, eficiente – e às vezes até divertida – desobediência civil.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.

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