Pela manhã a gente costumava olhar a serra como quem pede permissão para deixar o dia nascer. Era hora de nascimento o estalar da manhã, tempo de acabar a morredeira do sono.

Nós cultivávamos o vermelho do caqui, almoçávamos colorido e jantávamos sob a quentura do amor de minha mãe. Mas coisa mesmo era ter uma figueira do lado de fora da janela do quarto. Coisa mais linda de morrer.

Quando eu juntava as mãos para rezar a Ave Maria de noite, agradecia em ter sombra na janela do quarto, vento fresco, ternura. No final, testemunhava para o céu que a figueira me fazia mais feliz. Eu tinha sete anos e a árvore já era grande, de criança nenhuma alcançar o seu galho mais alto, se enguinar era risco duplo: cair e se estrepar e ainda ter os tapas de minha mãe.

Tínhamos, eu e Geronço, parceiro de qualquer coisa, pacto de manter pra gente mesmo e pra mais ninguém a sensação que era pegar a figueira pela cintura, juntar o umbigo com o corpo dela e fechar os olhos. Uma pulsação? A planta mandava que a barriga da gente se mexesse por dentro, sensação boa. A gente virava árvore um pouco.

Armar a rede, a árvore nos dava uma mão. Um braço até. Viver de sombra, nem era preciso pedir, que sombra tinha todo dia.  Meu avô contou que tinha um tipo de figueira que era muito importante porque debaixo dela Buda havia alcançado uma tal revelação. Outras vezes ele dizia que não era revelação, era a luz. Contei isso a Geronço.

Foi quando Geronço deu de me olhar atravessado. Falava um não-sei-o-quê de estranheza, que eu andava fixando demais o olhar no chão, que arrastava por demais a chinela, que isso, que aquilo outro. Que até eu andava muito desastrado quebrando as coisas.

Dia 13 de abril, não esqueço a data, dei de ficar mais de três horas sentando na janela, as pernas balançando pra fora, olhando a figueira se abocanhar da terra em redor. A raiz mordia o chão, rasgava o pó do chão, e ia se chegando pra dentro de casa. Isso vinha de muito tempo, é claro, de mais de cem anos, mas vi que ela corria, a raiz. Nos últimos dias ela corria. Eu vi, meu avô viu, fizemos um silêncio de complacência.

Em dois dias a raiz da figueira comeu a cerca, os girassóis, o tapete da porta de entrada de casa, o olhar triste de minha mãe de desde quando meu pai partiu. A figueira comeu as histórias de meu avô. Levou pra dentro do tronco, ainda, a chaleira, o fumo de rolo.

Quando conseguiu entrar no meu quarto, pela sala adentro, a raiz estancou. Tinha pintado de cor-de-raiz as paredes da casa toda, parecendo veia, levando pra dentro de mim.

Foi quando Geronço decretou: eu tinha sugado a energia de ser árvore pelo umbigo.

Carmezim escreve às quartas

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