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Era uma reportagem sobre circos. Cheguei estavam uns meninos cabriolando no céu, presos por uns panos laranjas. Fiquei assistindo, temerosa de que ainda não estivessem muito treinados e caíssem de mau jeito. Mas eles só riam e gritavam de alegria de estar voando.

Luiza desceu e veio tagarela, com aqueles olhos vivos com os quais a gente nasce e depois perde quando faz 12 anos, feito dente de leite. Foi contar com muitos detalhes como o picadeiro mudou sua pequena existência. Recitou que estava mais alegre, mais comportada, mais estudiosa. Passava as manhãs lá, antes de ir para a escola.  (o mundo virou esse lugar em que não se precisa mais fugir com o circo, apenas tomar aulas).

Em algum momento perguntei se ela gostava de se apresentar pra muita gente, se não ficava com vergonha. Luiza com os olhos ainda mais arregalados respondeu: eu AMO. E os pais vinham assistir? A mãe sim, o pai ela não conhecia. Quer dizer, viu uma vez só, quando foi em casa. Soube que era motorista de ônibus.

Na mesma hora, duas amigas que acompanhavam a conversa apontaram um ônibus vermelho e azul que passa na avenida: “Luiza, será que aquele não é teu pai?” Ela olha aflita, depois faz cara de pouco caso. “Não, essa nem é a empresa que ele trabalha”.  Emenda  contando que quando sobe no ônibus sempre se agonia pensando se vai encontrá-lo. “Toda vez é assim”.

Saí de lá querendo tanto acreditar em Deus, para pedir que lhe desse coisas boas. A história não saiu no jornal, nem nunca mais a vi. Queria dizer que penso nela quando vejo um ônibus passar, mas seria mentira. Se fosse um espetáculo de circo, ou um programa trash de tv, no final eles se encontravam.

*Tatiana Mendonça escreve às sextas

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