Borges declarou certa vez ter lido e relido sempre os mesmos livros. O meu amigo Davi Ramos me censurou em seguir o exemplo, com o argumento de que somos jovens demais para reler. Na conciliação entre os dois, não releio muitos, mas pelo menos um livro: “Cartas a um jovem escritor e suas respostas”, de Fernando Sabino e Mário de Andrade. Em especial, uma passagem, de quando Sabino tinha dezenove anos e Mário, o seu último, que recorto para que guardem junto comigo.

Fernando Sabino, 30-12-1942

O Abgar Renault esteve aqui e fez uma conferência sobre Tagore. Gostei muito dele pessoalmente e o admiro muito. Você se dá com ele? É pena um sujeito como ele, podendo ser um grande artista e se perdendo assim, não é? É o mal de todos os mineiros, mal de que pretendo de qualquer maneira fugir: se perder em outras atividades, se deixar vencer pela vida social, política, burguesa. Ser muito passivo, não ter coragem suficiente para passar o pé em tudo. Todos aqui são assim. Cyro dos Anjos, por exemplo, confessa que procura esconder o mais possível a sua condição de escritor, quer passar apenas por um bom burguês, para evitar amolações. O diabo é que o sujeito acaba ficando burguês mesmo… Guilhermino, Alphonsus, esses da velha guarda vão todos ficando assim, camaradas que podiam ter feito grandes coisas. Essa terra aqui é desgraçada, Mário. Ou o sujeito foge daqui (…), ou se perde mesmo. É o caminho de todos nós se aqui ficamos: casar, ter filhos, criar galinhas, um bom emprego, condição social – e literatura mesmo… horas vagas! É o cúmulo. E lá vou eu, Mário, lá vou eu.

Nem queira saber que drama tem sido isso para mim. Estarei indo pelo mesmo  caminho? Será que conseguirei reagir a tempo, ou me aguentar a-pesar de tudo? Estarei sujeito a ser artista nas horas vagas, por diletantismo? Isso para mim será pior do que a morte. Mas então é preciso mesmo mandar tudo à merda e tocar pra frente, romper com tudo e todos, abandonar tudo e todos, fugir daqui para poder se aguentar? Sinto perfeitamente que se continuar com o corpo mole acabarei pior do que eles, Mário. E isso não pode, não pode acontecer de maneira nenhuma. Coragem eu tenho, se for necessário. Mas é necessário? E até que ponto é preciso reagir? Será preciso sacrificar tudo? Tenho atravessado uma crise tremenda, nem queira saber. Cheguei a um ponto em que sinto que é preciso tomar alguma decisão, quanto antes! Porque se eu caso para depois resolver a questão (e a questão é quase toda essa, como você deve compreender), depois é que não resolvo mesmo. Porque isso de sacrificar amor, facilidade, tudo enfim, eu topo mesmo, estou disposto. Mas sacrificar os outros… Nada pior para um indivíduo do que o dia em que percebe que não há compreensão possível, que isso é quimera, e que ele será sempre como uma região amaldiçoada onde ninguém consegue penetrar… E minha obra, será sacrificada com isso?

Eu estava tão adormecido, Mário, tão cego de entusiasmo, que não via nada disso, achava que tudo nadava em rosas, estava até admirado de ser tão dócil, tão facilmente moldável. É que não percebia que estava adormecendo qualquer coisa em mim, qualquer coisa que está acordando agora, qualquer coisa que sou eu próprio. Nunca vi inconsciência tamanha. Agora, estou emaranhado demais, tudo que acontecer será apenas sofrimento. Como consegui me enganar por tanto tempo, como consegui pensar que havia possibilidade de ser de outro modo, de conciliar tudo tão facilmente, como se a gente não fosse mesmo um ser maldito desde o nascimento… 

Mário de Andrade, 23-1-1943

Você se lembra em Fantasia, de Walt Disney, aquela passagem da Fuga de Bach, em que se vê um túnel confuso e aquele como que caixão de defunto se bota andando e se anula túnel adentro? A inteligência de vocês, moços (…), está muito assim. Não é conciência: é excesso de conciência. Além da dúvida, sempre nobre, sobre o valor pessoal, mas que quando desprovida de ingenuidade nos imobiliza em caixão de defunto, vocês exigem saber o que vão encontrar no fundo obscuro do túnel. E vocês não têm certeza que seja uma qualquer espécie de dia. Assim, nem mesmo o caixão se bota andando. O crachá da inteligência relumia na peitaria enganada. Mas é a estagnação. De muitos moços (…) tenho ouvido ultimamente os julgamentos, as análises mais implacavelmente clarividentes sobre o confusionismo do momento que passa e as incertezas pessimistas sobre o futuro próximo. O que me assombra e me entristece muito, é que toda essa clarividência sádica é um pretexto para não fazer.

E é preciso antes de mais nada, fazer, Fernando, é preciso fazer. Eu creio que você vive justamente num elemento estagnado em que o seu dever é fazer. Você está arripiado de perguntas inúteis: “Coragem eu tenho, si for necessário. Mas é necessário?”; “Cheguei a um ponto em que sinto que é preciso tomar alguma decisão. Porque si eu caso para depois resolver a questão, depois é que não resolvo mesmo”; “Porque isso de sacrificar amor, felicidade, tudo enfim, eu topo mesmo, estou disposto. Mas sacrificar os outros?” (…). Tomei a paciência de copiar estas frases da carta de V. pra que você as guarde consigo. Foram escritas aos dezenove anos! em 1943!!! Em 1843 os Álvares-de-Azevedo do tempo escreviam essas mesmas frases. E você sabe como elas saíram vívidas, verdadeiras de dentro de você. É você. Mas eu sei como elas saíram igualmente vívidas e sofridas dos Álvares-de-Azevedo maiores e menores de todos os tempos. Mas você me interromperá com todíssima razão: ‘Mas eu não tenho nada com Álvares de Azevedo e si coincido com ele, ele que se fornique! É o meu sofrimento, é o meu caso que eu tenho que resolver’. E você tem razão, Fernando. O que eu quis foi apenas dar mais humanidade ao seu egoísmo. Digo mesmo: dar mais egoísmo, dar mais profundidade ao seu sofrimento e ao seu egoísmo. Porque você ainda não é o “egoísta” no sentido em que Milton, Goethe, Dante, Camões o foram, no sentido em que o artista, o homem tem de ser egoísta. Pra se realizar. Você pensa ‘nos outros’, hesita em ‘sacrificar os outros’, e esta aparência de humanidade é que me parece deshumana. Mesquinhamente humana. Apoucadamente humana, como si a sua humanidade (…) se resumisse às quatro ou cinco pessoas que você toca com a mão!

Eu não sei, Fernando, eu não estou aconselhando nada, V. tem de resolver sozinho. Mas haverá mesmo o que resolver? Tudo não estará indo certo? E neste caso o seu sofrimento e as suas dúvidas não derivam nem das circunstâncias da sua vida, nem da sua mocidade ávida do sofrer, mas das próprias realidades tão confusas da vida atual do homem. Não será talvez preferível e mais profundamente egoísta você não sacrificar nada, nem facilidades, nem amor, nem gozo, nem inimigos, nem incompreensões, mas viver tudo isso junto, em tudo procurando apurar o que é você e buscando se superar em você? Praque imaginar si do outro lado do túnel faz dia ou faz noite? Só tem um jeito de saber: é ir até lá. O perigo não é encontrar noite lá, mas encontrar a noite e imaginar que é o dia. Talvez o milhor segredo da dignidade de ser homem é ter a força de dizer: ‘perdi’. Porque, Fernando, nós perdemos. Nós perdemos sempre… O indivíduo humano será sempre essa ‘região amaldiçoada’ em que não é exatamente que ninguém consiga penetrar, mas em que toda exploração é imperfeita, incompleta. E por isso deformadora. Até para o indivíduo mesmo. É o signo da maldição.

Saulo Dourado escreve quinzenalmente às segundas-feiras

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