Não é nada, é só uma planta crescendo onde não devia, duas paredes, nenhuma terra à vista. Era mirrada, três ou quatro ou cinco folhas quando reparei nela pela primeira vez, aqui ao pé da minha janela. Na hora pensei que era como aqueles bebês defeituosos que nascem condenados a morrer sem ter vivido, mas a verdade é que ela só cresce e talvez até vire uma árvore. Não, isso seria bonito, mas é impossível, vamos separar de vez as duas categorias — há coisas bonitas e há coisas impossíveis, não chore. Mas será grande.

Tenho bons sentimentos e já fui cristã, mas devo confessar que não tenho parte nisso. Nunca nenhuma rega, nem aquela água de torneira no potinho de margarina, nem aquele resto que estou bebendo e de repente lembro que não quero mais. Ela vive de sol quando faz sol e de chuva quando chove. Não precisa que eu exista.

Eu, ao contrário, ando carecendo olhar pra ela como uma reza que eu reze. Vejo como está verdinha em meio à imundície do teto da casa vizinha e tenho vontade de criar uma lista das coisas que ela me diz e depois enriquecer com um livro óbvio de auto-ajuda que teria sua foto na capa, de preferência com o antes e o depois — estou guardando as imagens.

O primeiro capítulo será dedicado a aceitar as adversidades daquilo que se chama mundo a partir de um exercício aparentemente simples, ao mesmo tempo exasperante e pacificador, chamado já ter.

Pensando melhor, talvez precise dedicar todo o volume ao desenvolvimento dessa iluminação e torcer para sair convencida.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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