Queria fazer aqui uma denúncia ao pessoal das centrais sindicais: quinta-feira passada, dia da manifestação, Antônio, um dos dois Antônios que é porteiro aqui no prédio onde alugo este apartamento, veio trabalhar normal, não se abalou nem nada de ir para a rua protestar.

Mas trabalhando – disso fiquem sabendo vocês, pessoal das centrais – Antônio protesta mais, bem mais do que se parasse um dia só para se manifestar.

Antônio pega no serviço todo dia às dezoito da tarde, para largar só às seis do dia seguinte. (Por sinal, doze horas, pessoal das centrais sindicais: cadê vocês? Enfim, deixa quieto, que não é sobre isso a crônica.)

Se o morador daqui chega em casa cedo, até umas vinte, vinte-e-uma da noite, capaz que ainda pegue Antônio todo empertigado, de sapato lustrado, calça social, camisa de botão com o nome do condomínio bordado, de cinto e tudo, luxando numa fineza danada.

Mas passou desse horário, é batata: lá vai Antônio abrir o portão arrastando pendurado no pé seu borrachudíssimo chinelo (também, não tem pé que aguente aquele tijolo de sapato), já vestido com sua calça preta moleton (a mais velhinha que a pessoa tem, a do elástico folgado, sabe?), mais o usual blusão vermelho, puído mas de estimação – de manga comprida, é claro (porque de noite bate um ventinho, aquilo esfria os ossos que só vendo).

E assim, todo dia, Antônio se manifesta: imprime um pijâmico ritmo a uma parte de seu trabalho inglório, que é levantar-se da cadeira toda santa vez que chega alguém na porta, a pé ou de carro – aliás, a esse propósito, amigos, creiam: moro num prédio 1) de cujos portões nenhum morador possui a chave, dependemos todos do porteiro; e 2) no qual se arranja muito dinheiro para reformar as pastilhas da fachada, e nenhum para instalar um bendito de um portão automático para facilitar a vida ao trabalhador da portaria. (A síndica a esta altura estará pegando da caneta para escrever-me uma carta, lembrando-me de que o condomínio recentemente fez uma benesse aos porteiros, comprou-lhes uma televisão nova, grandona, inquirindo que isso eu não boto na crônica. Pois boto, dona síndica, e digo mais: arranja-se muito dinheiro para comprar televisão, e nenhum para instalar um bendito de um portão automá…)

E tem mais, pessoal das centrais sindicais: não é só Antônio não, viu? É todo mundo, no Brasil todo mundo é cedo ou tarde obrigado a dar um galho no trabalho, porque aqui pelo trabalho paga-se uma miséria, dá-se uns benefícios indignos do nome, e cobra-se em troca o couro do cidadão. Essa Bahia onde vivo é talvez a prova maior de que o ato, a noção mesma de trabalho, no Brasil, já leva em si, incorporada, um quê imenso e diário de protesto.

O brasileiro trabalhador já está se manifestando, pessoal das centrais sindicais, desde que se inventou o trabalho neste país. E está desde sempre acordado, pessoal das centrais sindicais. De pijama, que seja, mas muito bem acordado obrigado.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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