Existe essa cidade na Inglaterra chamada Bath. Ela tem esse nome direto, Bath, mas já teve um mais poético — Aquae Sulis, ou Águas de Sulis (uma deusa dos britânicos que os romanos transformaram em Minerva). Isso porque o banho que se toma em Bath é especial, dizem. A cidade fica sobre um manancial de águas termais ricas em minérios que sobem fumegando do chão.

Quando ainda era Aquae Sulis, os romanos construíram ali uma casa de banhos enorme, rebuscada, com muitas estátuas de imperadores e quartos de massagem e piscinas de muitas temperaturas, e a casa ficava dentro de um enorme complexo religioso. E a maior parte disso ainda está lá, hoje conhecida com menos poesia, mas com o título de Patrimônio da Humanidade e muita reverência, O Banho Romano.

Além do banho romano, que se pode visitar, mas não tomar — toma-se só um copinho de papel com a água quente —, Bath é uma cidade graciosa e aconchegante e também um tanto rica, com suas pousadinhas para casais e lojas de vidros azuis produzidos localmente e edições de Harry Potter em latim apenas porque romanos.

Mas eu ficava mesmo era pensando que os romanos iam pirar no Jorro.

Caldas do Jorro, na Bahia, também foi erguida sobre um manacial de águas termais ricas em minérios que sobem fumegando do chão. Os banhos jorrenses são bicas públicas em uma base de concreto com paineis de mosaico, que ocupam majestosamente a praça central da cidade, onde todo mundo vai de roupa de banho e roupão e chinelo para tomar um banho medicinal — ou vários — diariamente e gratuitamente. E tomar quantos copos de água quiser.

Além das bicas, o Jorro é uma cidade graciosa e aconchegante e também um tanto pobre, com sua rodoviária diminuta, seus restaurantes de bode, seu enorme banheiro público (não tão distante dos banhos romanos, mas sem massagem) e com o melhor mingau de milho e o melhor mingau de tapioca já produzidos pelo homem. É também uma cidade que ainda conserva seu nome poético, mesmo que não viva na poesia.

É também lá onde minha avó tinha uma casa que era um mundo, com tantos bichos diferentes no quintal, onde matei gafanhotos e os dei um enterro cristão em potes velhos de margarina, onde peguei piolho, comi rapadura de banana e de goiaba, dormi na rede e pisei num prego e descobri o que era tétano (e porque eu deveria ter medo dele).

Isso não se relaciona especialmente com a água, mas aposto que as crianças dos romanos também iriam pirar.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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