Estava passando um rádio velho na televisão e minha mãe lembrou que na casa dela de criança tinha um igualzinho. E que meu vô sempre muito sabido conseguiu fazer uma ligação com o alto-falante pra rua toda escutar, porque não cabia mais tanta gente naquele espaço apertado. Devia ser jogo, porque ele ama muito um toque de bola. Dito assim dessa maneira. Não faz muita questão de gol, mas gosta de ver os passes precisos como se fossem obras de gente divina que não existe.

Nessa época, a atração da casa, além do rádio, era o filtro de água e os copos de alumínio que ficavam em volta. Pobre assim. Nas noites muito compridas, com os sacos grandes de feijão de corda pra debulhar, ele ficava emendando uma história na outra, todas que ele mesmo inventava, e assim ia embalando os meninos pra ninguém dormir.

Eram muitos, precisamente 15. Ele conta isso achando graça. E também do dia que comeu carne de cobra por enganação porque chegou numa casa para passar a noite por causa de uma chuva e na hora da janta disseram que era carne de macaco (!) mas no outro dia ele bem viu no varal o courinho estendido. Eu tenho pena sua porque não sabe como é a risada que ele dá no final para arrematar o caso que repete sempre porque se esquece de que já contou e porque a gente sempre faz questão de escutar.

E tem outro, do fantasma que apareceu em casa com o agravante de ele ser casado há mais de 50 anos com  a mulher mais medrosa do mundo inteiro, minha vó. Ela estava ouvindo de noite o barulho da cozinha e o mandava ir lá ver o que era. Ele levantava porque obedece sempre, é um amor que não cabe nessa vida, e aí ligava a luz, não era nada. Voltava. Daí a pouco de novo. E isso assim vezes sem fim. Até que resolveu não ligar a luz e sentiu uma coisa se mexendo. Era a bacia que se movia. Meu vô é muito corajoso muito muito mas ficou com medo. Ele confessa. Era o fantasma, não ia ter o que fazer. Mas era sua obrigação enfrentar e foi lá ter com ele. Quando levantou a bicha, um gato muito assustado saiu de dentro dela.

Meu avô foi abandonado pelos pais quando ainda era um bebê quase e depois casou fugido porque minha bisa não queria ter preto na família. Não carrega mágoa. Se você algum dia o encontrar ele vai dar um jeito de dizer três ou quatro ou cinco vezes que é um privilégio ter tudo que tem.

O privilégio é nosso, vô.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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