Quando questionado pela razão de nunca mudar-se do norte para o sudeste, o crítico e filósofo Benedito Nunes ironicamente respondeu: “É que eu não tenho como levar a minha biblioteca…”. Na sua casa da Travessa da Estrela, em Belém, havia mais de cinco cômodos só para livros. De fato, uma mudança de mais de quatro mil quilômetros seria trabalho para caminhões-cegonha. Escuto amigos que precisam ir de vez para outras cidades se lamentarem pelos volumes que tiveram de deixar, com a esperança de nos próximos 23kg de bagagem conseguirem pelo menos recuperar os favoritos. Outros que nunca conseguiram e lamentam o que Benedito não gostaria.

Inebriado pelo sentimento da falta que não tenho, abri a porta da estante onde acumulo livros por anos. Tive uma vertigem, para a minha surpresa. Com elas me vi pela primeira vez fixado: uma biblioteca não deixa de ser uma proposta de fixação. Borges diz que por milênios o território do povo hebraico foi um livro. O meu são trezentos, cujos caixotes eu precisarei carregar para onde for, se for.  E nessas horas vemos que um homem é mesmo atravessado por seu tempo: há décadas isto me daria o sentimento de construção de um patrimônio material, hoje, quando objetos se desprendem da matéria, soa-me como um empecilho.

Eu que planejo receber faturas só por e-mails para pagá-los pela internet, eu que encontro apenas os comprovantes de pagamento já digitalizados, eu que mantenho uma agenda virtual para me lembrar dos compromissos e que admiro o botão “localizar” para fazer imediatamente o que demoro meia hora entre gavetas, tenho o sonho do acesso disseminado e imediato de conteúdos, ao que me vejo infiltrado por uma época em desenvolvimento. Uma nuvem de livros eletrônicos que me mostraram, com o mesmo número de livros que guardo em papel e capa na estante, recebeu a minha vertigem inversa. Fechei o punho comemorativo e murmurei “enfim!”.

O espaço será o tema do nosso século, assim como o tempo já foi de outro, disse-me um colega. Já um tio insiste que devemos mesmo cuidar do espaço terrestre, mas só até o ponto que este der e tivermos a possibilidade de nos espalharmos pelo universo.  Ou tudo isso faz parte da tese que escutei de um feirante na mesma Belém de Benedito Nunes, “baiano não gosta de levar nada na mão”, o que se comprova por Alegria, alegria de Caetano, ou a galáxia mesma se expande pelo mundo que então se condensa. Nos dois casos, quero levar minha biblioteca no cordão de uma calça branca de flanela.

Saulo Dourado escreve, quinzenalmente, às segundas-feiras.

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