Ando falando há alguns dias como foi interessante que uma passeata tivesse sido organizada na Paulista depois que um rapaz em sua bicicleta perdeu o braço ao ser atropelado por outro rapaz, que dirigia irresponsavelmente por ali. A importância maior, dizia eu, era o fato de que um ciclista de baixa renda ferido num acidente tinha finalmente sido motivo de uma passeata, coisa que nem com o ciclista morto por Thor Batista aconteceu.

Isso era parte de uma argumentação que tenho construído há algum tempo, sobre como os movimentos cicloativistas – apesar de discursarem sobre a ideia de “cidades para pessoas” e de falarem sobre como as pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte devem ser respeitadas e incluídas na malha viária urbana – ainda estão distantes das pessoas das periferias que realmente usam a bicicleta todos os dias para ir e voltar do trabalho, também por não terem alternativas viáveis.

Não sou cicloativista e nem de ciclista posso me intitular. Tenho pouco equilíbrio, porque tenho pouca prática. Quase não uso a bicicleta, apesar de achar que deveria fazê-lo e absolutamente morro de medo da possibilidade de andar com ela na rua. Em Salvador, era motorista. Em São Paulo, sou pedestre. Apesar disso ou por isso mesmo, apoio profundamente as reivindicações dos cicloativistas por melhor educação para motoristas, mais ciclofaixas, integração com o transporte público, menos impunidade para motoristas irresponsáveis e tudo o mais.

Mas tenho dificuldades com o que acompanho da movimentação cicloativista quando começo a achar que a cidade para pessoas à qual eles se referem tem tamanho e fronteiras diferentes dos reais. A preocupação não parece se estender à necessidade de ciclofaixas e segurança em diversos pontos afastados do centro da cidade de onde pessoas vem todos os dias – que podem estar fazendo tudo certo, mas que também podem estar desobedecendo as regras e/ou pedalando sem capacetes, luzinhas, buzinas e proteção adequada porque essas coisas não são lá muito baratas, e muitas vezes não consideradas prioridade. São pessoas, penso eu, que também não são consideradas prioridade nos trâmites judiciais e, por tanto, são mais vulneráveis diante de um acidente. Um ajudante de pedreiro, um limpador de vidros.

Certo que David Santos Souza foi atropelado na avenida Paulista. Mas fiquei curiosa por saber que tipo de perigos o trajeto diário dele – de Diadema para São Paulo – oferece. Na cobertura da imprensa já fiquei sabendo que ele é o caçula de cinco filhos, que termina o ensino médio, quem é sua mãe, o que gosta de desenhar. Claro, ele é uma pessoa antes de ser um ciclista. Mas antes de transformá-lo em mártir do cicloativismo, não é importante saber como é a sua vida de ciclista? Ele não poderia ter sido atingido em outro lugar? A Paulista e seus arredores são mesmo o único lugar onde é preciso concentrar esforços e medidas? Também não sei nada sobre a vida como ciclista de Wanderson Pereira dos Santos, morto no Rio de Janeiro por Thor Batista. Por onde ele andava? Escapou de morrer outras vezes, em outras avenidas?

Conferir de pronto a todos os vitimados por acidentes em bicicletas o selo de “ciclistas” é importante mesmo, na medida em que afirma que independentemente de estarem usando uma Caloi velha ou uma Brompton importada, a segurança deles na rua deve receber atenção equivalente. Por outro lado, não lembrar que as condições em que eles usam bicicletas são diferentes das de um executivo ou publicitário que transita, completamente equipado, pelos bairros mais centrais de São Paulo, pode mascarar a necessidade de incluir verdadeiramente as necessidades de uma população maior e mais diversa de ciclistas no plano de “cidades para pessoas”.

Estou me metendo em uma discussão complexa e faço minhas ressalvas  – vejo a cobertura da mídia sobre o movimento cicloativista, mas não conheço de perto. Googlando antes de escrever esse texto, no entanto, descobri uma coisa nova: houve, sim, uma bicicletada pedindo justiça para o acidente que matou Wanderson Pereira dos Santos. Essa parte da minha tese, portanto, não se comprova. Fiquei contente e estou revendo meus argumentos. Não deve ser verdade, então, que não há interesse nos ciclistas pobres. Mas espero ver outras iniciativas de interesse que incluam mais planejamento do que bicicletadas pós-acidentes. Chamar as pessoas que já se mobilizam em relação a isso em bairros periféricos para discussões mais amplas, talvez. Isso possivelmente já existe em algum nível, mas, se o discurso foi além do “quero andar de bicicleta” e chegou no “cidades para pessoas”, queria ver mais. Vou continuar googlando.

Camilla Costa escreve aos sábados.

P.S.: Esse texto foi modificado depois de uma discussão interessantes com Juliana Cunha e Camilo Fróes. Agradeço!

Anúncios