Chovia, mas chovia muito, no dia em que cheguei a este mundo. Chovia tanto que chega derrubou o muro de pedra do Hospital Português, onde nasci. Chovia e era apenas 17 de março, nenhum dia importante, digno de se escrever por extenso. Não era bem o que se pode chamar um Bom Dia Para Nascer, como disse de seu Primeiro de Maio o aniversariante Otto Lara Resende numa crônica de 1991.

Mas pronto, me enxergo, não sou ninguém para interessar a vocês contando do dia em que nasci. Sou pago para escrever a crônica e basta; portanto lá vai.

Começo pelo domingo passado, quando recebemos a visita de meus pais aqui em casa. Em troca de um bom pedaço de pão caseiro, deixaram-me sobre a mesa uma pequena relíquia, que me faria companhia durante essa semana que passou: uma dezena ou pouco mais de páginas em encadernação caseira intituladas “Encontro com D. Annina – Memórias do ano 1982”.

Trata-se da transcrição de um brevíssimo diário redigido à mão por minha tia Annina Sarno, irmã de meu avô Franceschino, italianos os dois. Falar de tia Annina na data de hoje é aliás oportuno, por ter sido ela afinal personagem determinante no concurso de fatos que redundaria nessa minha modesta existência: conta-se que foi ela a grande responsável por convencer meu avô a mudar-se da Itália para o Brasil, no início dos anos 50 – fato ao qual devo a vida, e vocês, a infelicidade de estar em frente à tela lendo este bolodório em pleno domingo.

Recordo-me pouco de tia Annina – ela faleceu quando eu tinha coisa de seis anos – , mas há em minha memória um registro esparso de seu feitio alegre e sereno, fazendo-me sorrir n’algum quarto amerelo-penumbroso de piso amadeirado onde terá vivido ou se hospedado.

Bem melhor que minha memória é o tal diário, que registra idas e vindas, passeios, viagens, nascimentos, doenças, enterros e uma série de acontecimentos cotidianamente triviais que se passaram entre janeiro e maio de 1982 – quando ela já se aproximava dos 80 anos de idade e ainda faltavam dois anos para eu nascer.

A transcrição literal deixa entrever na grafia das palavras seja a raiz italiana jamais abandonada, seja o grato enraizamento na brasilidade. Anota que um “entregou a alma ao Creador”; que outros “vieram de avión”; e que houve também uma divertidíssima “reunião alegre no Plegram [play-ground, suponho]”. “Oje”, “tradizional”, “notizias”, “fesdanza” e mais muitas são palavrinhas que revelam dois idiomas imbricados, duas culturas docemente amalgamadas numa forma gentil de pessoa.

Boa italiana, tia Annina estava sempre atenta à comida: merendas e almoços e lanches e jantares estão sempre entre as marcas do dia, registrados geralmente antes de dormir no diário. “Fizemos ravioli”, “a pizza feita por Lina” e “os salgadinhos de Aurora” povoam sempre seus breves relatórios.

Boa brasileira, tia Annina adorava “prosar” e “lorotar”. “Lá encontramos minha gente de Poções stava Peixoto e Dolores prosamos lembrando os nossos tempos”. “E com Du e Noia lorotamos bastante.” E, claro, não perdia uma novelinha. “As novelas também enchem o tempo”; “À noite a novela e a reza do meu terzo.”

Boa serva do Senhor, tia Annina fazia de um tudo para não perder a missa, desfrutando sempre do passeio até as igrejas. Rezava muito o terzo. E em época de semana santa então, não tinha negociação: “Pietro comprou um citio perto de Lea, todos me chamaram para ir passar a S. Santa, mas não me convem, tenho que ficar aqui pois é tempo de rezar por todos eles que vão para fora (certo?)”

Certo, tia. Tia Annina não raro encerrava o registro do dia com uma interrogação graciosa, como dialogasse consigo mesma, ou com “Deos”, ou com o “meo querido Corinto”, seu marido, então já falecido – jamais saberemos. “Reclamei a Marilene que está sempre imposível quebra minhas cosias de estimação, oje arrancou o dourado do bibelô que Noemia comprou em Manaos, isto me enerva, mas tudo passa. Certo?” Te cuida, Marilene.

Encanta no diário de tia Annina o olhar prosaico cheio de resignada delicadeza, de fino bom humor fino e certo sentido divino para um cotidiano aparentemente repetitivo, sem maior finalidade. Mesmo nas situações mais aviltantes do dia-a-dia, havia uma reflexão de fundo, um agradecimento, um aprendizado. “Depois da missa fui até o I.N.P.S. da Vitória para conseguir a mudanza de pagamento para o banco aqui no C. Grande Economico para não ir a rua Chile receber uma ninharia, mas não deo certo, tinha que fazer um depósito de 10 mil cr. Agradeço pois não tinha juro nenhum era só abrir a conta para a transferência, tá bom?” Uma prova viva de que não há tédio nem falta sentido na vida vivida no registro do sagrado – seja ele (aí já sou eu quem digo) religioso ou não.

Mas o que me chamou mesmo a atenção foi o quanto ela era atenta ao tempo que fazia do lado de fora da janela. Conectada com o tempo da natureza, não deixava passar despercebido se fazia sol ou, principalmente, chuva – ou melhor, “chiuva”. “Amanheceo chovendo”; “o tempo continua chuvoso”; “Chiuva durante a missa”…. há chuva por todo lado.

Dia 19 de abril, enquanto as chuvas não davam trégua à Cidade da Bahia, ela refletiu: “As chuvas continuam, foi obrigada a sospender a missa, o pior e que os pobres com as casinhas de barro e até minhas casas que não são de barro mas a chiuva foi continuando e entrou nas casas com prejuizo e muito susto, e alguma morte, o que acontece que nunca ficamos preparados para a chiuva e para a morte, sempre quasi nos pega de emproviso.”

Porém toda tragédia, bem sabia tia Annina, não era culpa da chuva de Deus, senão das casas e muros dos homens. “A chiuva foi implacavel na chegada no predio me molhei toda. Azar, pois a chiuva é óttima.”

É, tia, pensando bem, aquele dia comum e chuvoso foi um ótimo dia para nascer.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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