Ouvi mais de uma pessoa dizer: boa sorte, minha filha, porque na vida dele foi tudo muito difícil. Um ou outro deixava escapar, sem maiores explicações, que era porque nunca quis se entender direito com seu santo. Me achava logo sabida de descartar o pensamento, imaginando que santidade nenhuma devia estar pra mixaria de só agradar quem lhe ligasse. Ingênua, acreditava que o requisito para ser santo era desde sempre perdoar nossa humanidade, mas o fundamental foi esquecer que esse deus era também homem, de um tipo muito, muito, muito velho.

Acontece que fiquei impressionada e as boas sortes todas não deram conta, porque enquanto apurava as informações e escrevia a tal matéria sobre a tal pessoa o que eu sentia era um peso me sugando. Ainda hoje só de lembrar me canso e me entristeço.

Há coisas encantadas porque não são para ser — e aí a gente só faz acumular tentativas vãs — ou é sempre uma questão de persistir até dobrar o cabo da boa esperança? Queria fazer um tratado sobre o que é ou está amarrado, o que implica, de alguma forma, a ideia de destino.

Em vez disso, tenho apenas uma lembrança. Um professor meu — aquele mesmo que já citei aqui — dizia que na vida não temos escolha. Que pela soma das circunstâncias, a gente só acaba fazendo aquilo que desde sempre teria que fazer. O sofrimento envolvido no processo seria, portanto, dispensável, mas o problema — ele gostava de enfatizar essa parte — é que não podemos nos livrar da angústia. No máximo despistar-se num momento ou outro dela.

Como essa vida é besta. Boa, mas besta.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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