Anita cresceu tendo que usar calça semi-baggy para ir pra a escola e nunca esqueceu disso. Por isso que depois não queria festa de 15 anos, nem de casamento, nem nada. Pra que, se nem escolher a roupa ela podia? Melhor ficar sem festa mesmo, pra mostrar que quando ela não queria, ela não queria. Mas teve que querer e nem lembra mais se foi ruim ou bom.

Também se obrigava (ou era a obrigavam, já não sabe) a prestar contas sobre todos os meninos que já tinha beijado, e talvez por isso tenha beijado tão poucos só de raiva e casado logo, porque era pra ser logo e pronto acabou.

Na lista de coisas que Anita achava que tinha feito sem querer estavam os estudos, a profissão, a festa de casamento, a mudança, o cachorro, a calça semi-baggy, a segunda viagem para a Europa e aquela época em que usou franjinha na oitava série. E era uma raiva que só aparecia quando ela olhava no espelho, mas aí não parava mais de atormentar.

Foi quando encontrou Simone que Anita teve um choque e percebeu que a lista tinha que cair pelo menos pela metade, porque a decisão de contrariar os outros foi dela e, de tanto querer fincar pé, fincou pé no que não queria para si. Simone, velha como estava e de cabelo loiro transformado em bombril, foi guardada desde a época em que Anita só podia usar cabelo preso, com uns 5 anos.

Ela lembrou que Simone não gostava de cabelo preso de jeito nenhum.

Camilla Costa escreve aos sábados.

Anúncios