Há “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, personagens da mitologia cristã que prenunciam o fim dos tempos.

Há “Os Quatro Grandes”, chefes de uma rede mafiosa internacional que só o infalível detetive Hercule Poirot consegue desbaratar, num thriller da escritora britânica Agatha Christie.

Há “Os Quatro Mineiros”, que é como a história das letras nacionais registrou o grupo brilhante formado por Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pelegrino.

E há “Os Três Mosqueteiros”, do clássico de Alexandre Dumas, mas que, por serem quatro, entram nessa lista.

Haverá decerto quatro outros muitas coisas mais que ignoro. Mas o caso é que, em comum nessa quadra de exemplos, há o fato de exalarem todos o cheirinho de mofo da boa e velha Literatura.

Literatura com letra maiúscula à qual jamais pertencerei, mas que não me negará inspiração para um romance, um conto que seja.

Os Quatro Brasileiros – assim se chamará.

Começará numa quarta de noite normal, com um personagem, um velho (suponhamos um qualquer licenciado, ou então chofer de praça) gorducho, suado, bonachão, sentado em casa na frente da televisão para ver o jogo.

Um jogo previsto para ser jogado sem público no estádio, vez que um integrante da torcida organizada do time em questão recém-matara com um tido de morteiro um torcedor boliviano menor de idade, e a punição – ao clube, à torcida, ao nosso Brasil brasileiro – foi estabelecer-se que nenhum torcedor iria mais ao estádio até o final do campeonato.

Nosso herói então verá na televisão (surpresa) que quatro torcedores haviam ido à Justiça, brigado por seus direitos de sabe-se-lá-o-quê e conseguido entrar no estádio, e agora olha eles lá, cantando a plenos pulmões hinos ao seu timão, eô.

Ele aí sorrirá soltando ar pelo nariz. Do jogo, verá o primeiro gol; no segundo, já terá embalado, roncando, e a cerveja emborcará da pança para o chão.

Nos dias seguintes, verá no noticiário esportivo – o único aliás a que assiste e lê – a reportagem divertida mostrando a vibração, os lances, os flashes, as reações do inusitado que foi aqueles quatro torcedores solitários acompanhando o jogo.

Ainda lerá, curioso, o depoimento do locutor que terá narrado a partida: “A emoção da torcida faz falta”. Depois, pescará de um blogueiro indignado que “por causa de quatro (ir)responsáveis que buscaram seus direitos, mas não tiveram bom senso, o buraco que já era enorme poderá se tornar gigantesco para o clube”.

Sentirá que há algo errado muito errado naquele noticiário todo – muito embora, homem simplório, não saiba dizer bem o quê.

Até quando, dirigindo perdido a trabalho (esqueçam o licenciado, vamos ficar com o chofer), pegará pelo rabo a fala de alguém no rádio do carro:

“… o estádio maculado com a presença de quatro consumidores amparados pela justiça comum que passaram por cima de tudo para ver o time. O Pacaembu deveria estar vazio. Não só pela punição da Conmebol, mas por luto mesmo. Usei a palavra “consumidores” de propósito porque é o que essas quatro pessoas são. Antes do futebol ou de serem torcedores do time. O poder de compra os define. Como define nossa sociedade…”

Opa: nessa hora algo estranho despertará dos fundilhos da consciência de nosso herói.

E, iluminado, ele de repente prestará atenção ao motorista ao seu lado, um danadão que acabará de ter invadido o sinal vermelho para os carros. O velho sinal vermelho habitual, aquele que ninguém deveria furar, mas que alguém sempre fura. E pensará, unindo lé com cré, que todos os dias algum pobre diabo invade descaradamente o sinal fechado bem em frente à sua fuça.

Porque a lei – matutará cheio de ironia e raiva – é para todo mundo, menos para esses filhos da puta aí que se acham no direito de julgar, de si para si, qual é o sinal que se pode furar e qual é o que não.

E cogitará genial que todos os invasores são, na verdade… um único! Espera, um único não, ponderará, porque afinal já terá visto invasores de sinais vermelhos mais de uma vez numa mesma hora, num mesmo minuto, num mesmo segundo até.

Mas, homem observador de semelhanças, não deixará passar despercebido o fato de que os invasores agem de maneira tão parecida – aceleram sempre o carro espertalhão às pressas, bem naquela justa horinha em que o sinal fica vermelho para toda a gente – que não é possível que estejam agindo isoladamente. Há um método por trás daquilo!, pensará. E devem ser no mínimo dois os comparsas patifes. Ou três, os biltres. Ou quem sabe uma gangue – uma gangue de… quatro.

É, pensará. Quatro. Quatro, assim como eram quatro, clic!, os torcedores no estádio fechado.

E nessa hora aí do clic!, nosso herói terá então descortinado, sem querer, a matriz das mazelas todas desse Brasil varonil.

Pois terá irrefutavelmente descoberto que quem terá sempre espezinhado todas as regras que apertam nos calos; quem terá sempre dado um jeito de realizar o próprio e banal desejo, em detrimento da impossibilidade dos demais de fazer o mesmo; quem até terá se comovido com as desgraças do mundo, mas achado sempre que elas jamais terão tido algo a ver com o sacro-direito-a-ver-o-meu-time-jogar; quem terá não apenas furado sinais, mas sempre passado na frente nas filas dos bancos, obtido favores nos cartórios, sido liberado de pagar impostos e multas; enfim: quem sempre terá tripudiado do que é de todos, por todos, para todos, terão sido sempre eles, eles, eles – sempre aqueles mesmos, sempre aqueles quatro brasileiros irremediáveis sentados no estádio.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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