Ainda letárgico e sob efeito dos desdobramentos da semana momesca e seus odores – mescla peculiar de álcool, suor, alfazema e ureia – e sem completo domínio das funções psicomotoras, volto para contar-lhes como foi minha boda de porcelana com a folia da Soterópolis. Na verdade, relatarei apenas o que não se esvaiu da minha fatigada memória [se lembrasse 1% das estórias que vi, teria crônicas para o ano inteiro].

Sei que a grande maioria dos meus vinte e três leitores [sim, ultrapassamos as duas dezenas] – inclusive aquelas almas bondosas que me pagaram algumas latinhas na avenida – esperava um texto catártico, eloquente e viperino para o início do período quaresmal. Lamento decepcioná-los, mas os espasmos musculares que castigam meu corpo não permitem que me concentre o suficiente para transcrever algo mais inspirado. Renuncio [tamo junto Ratzinger!] à minha subjetividade estoica e recorro a uma lista ordinária. Omitirei nomes por responsabilidade jurídica, mas são alegorias de fácil ilação, neste samba-do-crioulo-doido:

A musa sem cabeça – Ela é bonita, desafina de vez em quando [quase uma regra no carnaval da Bahia], tem bloco, trio, camarote e o escambau. Tenta ser carismática além da conta e por isso é acusada de tentar plagiar outra musa [que de tanto forçar espontaneidade está se tornando uma farsa de si mesma]. Até acho que a criticam além da conta, mas aí ela resolve discursar bobagens entre uma música e outra e eu mudo de opinião. Nunca vai deixar de ser café com leite;

O falso paulista – O cara é soteropolitano, mas trabalhou na cobertura carnavalesca por um jornal paulista. Deu furo várias vezes [ui] nos hebdomadários baianos, encontrou as fontes certas e enfocou a folia sem o proselitismo e deslumbramento característicos da província. Um trabalho tão diverso e apurado que ofuscou a cobertura local. Fica a lição: É preciso sair da mesmice e reinventar [também] o nosso olhar sobre o carnaval;

Nação Gandhy contra-ataca – Com a reeleição do atual presidente para mais um triênio [o quinto consecutivo] uma atitude forte foi tomada – algo já cobrado nesta tribuna – contra as cortesias. Com menos fantasias para não-sócios fora da sede foi perceptível a mudança no perfil do bloco – com mais respeito às tradições. Houve também um esgotamento da “mística” colar-beijo por parte dos foliões que só buscavam ‘pegação’ – me lembra um amigo Gandhy parecido com Bin Laden. Um excelente avanço contra o processo de descaracterização do afoxé. Sim, o número de integrantes do Tapete Branco foi menor, mas a festa foi digna de um patrimônio imaterial da Bahia;

Inception no Carnaval – Há quem pense que a Mudança do Garcia resume-se aos protestos irreverentes na passagem pelo Campo Grande. Engano. A Mudança é muito mais que isso. Na segunda-feira o bairro pulsa, vive um carnaval dentro do carnaval, com reverência às tradições negras e sambistas do local. Um show ignorado por parte da população. Contra a proibição dos jegues um cartaz elucidativo: “Não pode jegue na Mudança do Garcia, mas pode burro na prefeitura de Salvador”. SENSACIONAL;

ZUMBIRIGUIDUM – O que faz uma música tornar-se o HIT do Carnaval? Não é ritmo [já foi rock, pagode, samba, salsa] nem letra [isso esqueceram há muito tempo aliás]. É uma frequência quase imperceptível [um centésimo de micro-Hertz] que HIPNOTIZA as pessoas, transformando todos em zumbis que repetem, mecanicamente, a mesma coreografia. Prova disso é que, aos primeiros acordes do sucesso desse ano, TODOS abandonavam seus afazeres – o catador de lata esquecia o saco, a corda arriava, o policial dava um tempo no corretivo ao meliante, o churrasqueiro parava de abanar seu carvão – para dançar o suingue importado do Benin. The Dancing Dead versão carnaval;

Animador de Pipoca – Pipoca é uma palavra vinda do latim PIPO e do bantu KA que significa “dançar de forma desorganizada e não-coreografada, podendo fazer uso de cotovelos, antebraços com o objetivo de abrir espaço diante da multidão ensandecida por um alto nível de ruído modulado”. Aí vêm uns gaiatos para ORGANIZAR AVALANCHE no meio da pipoca. Não merece um tiro em cada joelho? Sem falar do risco que esse corre-corre-lambretinha representa para bêbados descoordenados como eu;

Pipoca eu, Bloco você – O arriar das cordas é inevitável e irreversível. Resta saber quem vai ser a Princesa Isabel para alforriar os milhares de cordeiros. E se você acha – como alguns jornais daqui já estamparam – que o cordeiro tem um trabalho temporário e ainda SE DIVERTE, seu avô achava que o escravo devia trabalhar de graça porque tinha teto e comida. As pipocas do Chiclete, Eva, Baiana System, Armandinho e outras comprovaram a exaustão do modelo. Tudo bem que quem está forçando isso é o camarote [ironia] com a migração do público que quer “segurança”. Sim, nem toda pipoca enche, mas nem todo bloco enche. Continua importante manter os novos artistas com espaço nos trios independentes – como o Trio Novos Sons;

A buchudinha Gostosa – Ela é bem parecida com essa minha amiga aqui. Comentou-se mais sobre a suposta gravidez dessa musa que a renúncia do Papa e a bomba na Coréia do Norte por estas plagas. Teve comentarista de carnaval arriscando palpite de quantas semanas tinha o bebê. Se Rafinha Bastos estivesse aqui comeria os três;

O Alcaide Hiperativo – Ele tá mais fusquinho que mancebo na primeira semana de namoro. Quer mudar circuito, criar circuito, se duvidar sobe no trio e dá uma palhinha. Esteve em um bocado de camarotes, saiu em bloco de travestidos [sem fantasia, ok] só faltou pular na pipoca e comer o HOT-MORTE e churrasquinho de gato. Pelo menos não é folião de ocasião como o último [toc,toc,toc] que tornou-se CHICLETEIRO de conveniência. Esse é PSIRIQUEIRO de raiz. [Informo que na Bahia partidos políticos foram abolidos, o sectarismo agora é por gosto musical];

A Terra do Elogio sem Fim – Tem algo mais insuportável que essa rasgação de seda entre artistas, sub-celebridades, políticos, e principalmente, jornalistas nos camarotes/cabines de transmissão? Seguem o manual Fausto Silva: Todos tem talento, caráter e autenticidade seja lá o que isso signifique [no dia que uma pessoa não for autêntica, Doutor Albieri saiu da ficção]. Parece um certo Ducado Tropical. Não faça papel de bobo, Bobo.

Alex Rolim escreve às quintas e jura que viu tudo isso bem de perto

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