No princípio era só uma esquisitice normal. Ela ali se mostrando insinuante para que ele ainda pudesse sentir-se homem. Pagava para vê-la assim por duas ou três vezes na semana. Era bom, mas não suficiente. Se ele tivesse qualquer esperteza de desconfiar que nunca é, talvez não tivesse feito a proposta.

Aconteceu quatro meses depois de se conhecerem. Era noite de sexta-feira e para que tudo fique claro, não tinha nada de amor. Nem a migalha. Foi só uma coisa que ele pensou. Se não poderia acompanhar sua vida inteira e não só essas cenas já tão melancólicas. É, estava ficando triste, não excitado. Não, não era culpa dela.

Explicava com calma. Se ela poderia espalhar umas câmeras por sua casa e agir normalmente. Andar com a camisola furada, comer bolo de padaria, dançar uma música muito alegre no meio do dia, ver filme na televisão, chorar às vezes, espreguiçar-se quando acordasse. Alisar o gato. Se poderia comprar um gato.

Pagava por tudo, o quanto quisesse. E não é que fosse virar prisioneira, podia sair sem avisar. E quando voltasse, fazer o que costumava ser o seu de sempre. Queria só testemunhar uma existência. Repetiu por duas vezes.

Ela parou pensando e até riu por ter imaginado que já estava vacinada para todo tipo de loucura. Se tivesse qualquer esperteza de desconfiar que ninguém está. Olhou automaticamente para a pilha de contas no banquinho de madeira. Depois pensou na viagem para a Índia e foi isso que perguntou depois do silêncio: esse dinheiro que você quer me pagar dá pra eu ir pra Índia? Ele acenou que sim. E se garantia que não ia segui-la enquanto estivesse caminhando na rua. E ele retrucou um tanto envilecido: que tipo de doido pareço ser? Ela riu de novo, mas agora de nervoso.

E foi assim. Infelizmente, depois disso, nunca mais os vimos.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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