“Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

As aspas acima destacam pensamento de Riobaldo – o jagunço filósofo – protagonista de Grande Sertão: Veredas, obra-mor de Guimarães Rosa.

Começar uma crônica com um excerto de Guimarães é um despautério. Prova o quanto tenho andado azuretado nos últimos dias. E isso pouco tem a ver com as noites bem perdidas em esbórnias etílicas pelos becos degradados, e charmosos, da cidade de São Salvador. Diz respeito, entretanto às noticias que tomo conhecimento através dos vespertinos soteropolitanos – que só folheio após o almoço, quando o gosto de cabo de guarda-chuva molhado abandona o palato.

Aquele profeta cabeludo do Nordeste de Amaralina, propagador de ingresias, costuma vaticinar durante suas crises de lua cheia: “Toda vez que alguém fala em cuidar de Salvador, eu escondo logo minha carteira”. Por isso saquei meu talão de cheques – à la Paulo Francis –  quando tomei conhecimento dessa campanha Salvador: viva, ame, cuide.

Já vi que tem muita gente boa que abraçou a ideia, amigos de fé que encamparam a causa – justíssima por sinal – mas um troço que surge a partir de iniciativa do ‘empresariado baiano’ não vai sair a preço módico. A falta de civilidade de nossa urbe tem causa justamente na lógica empregada por esse ‘empresariado’. E se o cordial baiano andou perdendo as estribeiras de tempos pra cá, foi porque contaminou-se com esse modus operandi empresarial de pensar tão somente em si, levar vantagem acima de tudo e esquecer a coletividade em prol de interesses mesquinhos. Quem nunca deixou de amar e viver a cidade percebeu esse fluxo, crescente e medonho, há alguns anos.

Campanhas que pregam civilidade e respeito mútuo são comoventes e apelativas, mas desviam o foco da discussão para o efeito e não para a causa. O soteropolitano é fruto do meio ao qual foi jogado por décadas de descaso público, crescimento desordenado e mal planejado. É hora de fazer perguntas pertinentes a quem tem o dever e o poder de responder com ações corretas e que visem o bem-estar de todos a longo prazo.

Como um Riobaldo errante pelo centro histórico, desconfio quando resolvem espalhar arenas – nome abominável – pela cidade com tantos espaços caindo aos pedaços. Desconfio quando decidem construir ponte até a Itaparica de João Ubaldo, mesmo sem serem capazes de operar com o mínimo de eficácia um simples sistema de transporte marítimo. E quando falam em ‘choque de ordem’ então, sinto uma corrente de miliampères percorrendo meu espinhaço.

Desconfio e sempre hei de desconfiar. Porque sei que o povo nunca abandonou nossa cidade. E para recuperar a estima perdida é necessário muito mais que discursos e campanhas enternecedoras.

Viva, ame, cuide de Salvador. E desconfie.

Alex Rolim – o desconfiado – escreve às quintas

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