O hospital virou meu corta-caminho. Gosto de passar por lá por causa do jardim, das árvores e principalmente das abóbadas, essa palavra tão injusta na sua feiura de existir. A imponência do prédio prova sobrevivência a todos que estiveram ali, moribundos ou sãos.

Os corredores por onde posso andar são como uma grande sala de espera. Enfileiradas, sentadas ou chorando num canto, as visitas aguardam notícias das pessoas que deram defeito. Torcem que não seja quase nada e que os médicos saibam o que fazer. Mas por via das dúvidas, rezam. Talvez a fé seja uma maneira ordenada de esperança.

Sempre dá pena e alívio, juntos na balança. Às vezes, os doentes passam deitados em suas macas e mesmo sem ter notícia de quem eram, já dá pra ver como murcharam. Eu olho, mas sinto vergonha da intromissão, como se tivesse culpa de eles estarem ali enquanto eu só caminho para o trabalho.

Amanhã tudo de novo. Menos para os tijolinhos, que apenas existem.

Tatiana Mendonça escreve às sextas, mesmo quando não tem muito o que dizer

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