Tem gente que a gente gosta de graça, mesmo sem conhecer pessoalmente. Gente que a gente queria ter como amigo ou mesmo que fosse da nossa família só pra ter um contato, uma ligação mais próxima. Gente que a gente admira e queria ter a chance de um dia chegar pra pessoa e falar: “Pô cara, gosto muito do que você faz”. No fim das contas, isso tem um significado muito maior pra quem fala do que pra quem escuta, afinal aquele artista/escritor deve estar acostumado a elogios muito mais significativos. Mas é legal aquela pontinha de sorriso que você provoca. Foi assim quando pude abordar Ziraldo no Rio ou Luiz Fernando Veríssimo [força Veríssimo!] aqui em Salvador, casualmente.  Minha timidez vencida a fórceps para cumprimentá-los retribuída também de forma tímida, mas contidamente sincera. Com Belchior fui vencido pelo acanhamento e não me aproximei. Mal sabia que ele sumiria algum tempo depois. Perdi a chance.

Quero um dia ter essa oportunidade com João Ubaldo Ribeiro. Não sei se pela semelhança física com meu pai – que era maior quando o velho cultivava o imponente bigode que resolveu raspar no início dos anos 90 – aquela cara de caboclo do recôncavo, bonachão e contador de histórias, se pela coloquialidade com que conduz sua prosódia escorreita nas entrevistas, se pela firmeza e clarividência que defende suas opiniões nas crônicas, se pela capacidade de traduzir tão bem a nossa tradição oral em seus romances, se por seu amor inconteste pela Ilha de Itaparica evidente em seus livros e referências, mas sinto em João Ubaldo aquela empatia que une os pares da mesma tribo, do mesmo clã, da mesma prole. Quero chegar pra ele e dizer: “Houveram muitos livros que me transformaram, mas apenas um eu desejei, de forma vil e egoísta, ter escrito: Viva ao povo brasileiro. Me perdoe. E obrigado.”

Perdi essa oportunidade semana passada. João Ubaldo esteve em Salvador onde foi empossado na Academia de Letras da Bahia. Deveria ser pouco pra quem já é IMORTAL da Academia Brasileira de Letras – onde ocupa a cadeira 34, mas para ele, um homem que sabe o valor da contribuição da terra em sua obra, não é.  Algo notório no discurso de posse:

” Queridos conterrâneos e amigos, este é para mim, acima de tudo, um dia de extraordinária celebração, um dia de consagração e glória. Nada equivale ao que estou vivendo agora. Recebo hoje um prêmio que me exalta e enobrece mais que qualquer outro: a expressão do reconhecimento e da estima de meus concidadãos, o abraço da minha terra, o insubstituível sentimento de ver compreendido, e com tanta generosidade retribuído, o intenso amor que sempre lhe votei, e que transborda de tudo o que faço. Ingresso nesta Academia com grande orgulho. Recebo, através dela, mais do que mereço, mas nem por isso rejeito os louros. E a principal razão para que eu aja assim é que esses louros não são meus, são da Bahia, são de nossa singular civilização, são da força cultural que sempre nos distinguiu. Sou filho da Bahia, filho da denodada Vila de Itaparica, filho do Recôncavo Baiano, filho dessa costa venerável cujas ondas testemunharam o nascimento da nacionalidade brasileira.

Sou cria do Colégio Estadual da Bahia, Seção Central, o grande Central, verdadeira universidade pública, onde mestres e educadores inesquecíveis ministravam, através das aulas e dos exemplos, a melhor formação que se podia obter. Sou, ainda mais, cria da sempre celebrada Faculdade de Direito da Bahia, onde fui educado numa tradição humanista esclarecida, eloquente e libertária, entre juristas e pensadores de nível universal. Na faculdade, aprendi a ser cidadão, aprendi a escrever, aprendi que modelos admirar e adotar, incorporei valores básicos, convivi com espíritos eminentes, fiz discursos, escrevi artigos, disputei campanhas, perpetrei poemas, encenei peças. E, finalmente, sou cria do velho Jornal da Bahia, onde outros mestres também me formaram, na profissão que até hoje exerço.

Na Bahia aprendi o encanto de andar de madrugada com as pedras das ruas molhadas pela chuva recente, vendo meus amigos, tanto os da minha idade quanto os mais velhos, parar, abrir os braços, apontar os campanários ou o casario de Santo Antônio Além do Carmo, e recitar poetas do mundo todo, com quem nos sentíamos irmanados. Andei com pintores, escultores, cantores, mágicos de rua, jagunços, vagabundos, cafetinas lendárias, mulheres enigmáticas, anarquistas, stalinistas, trotsquistas, fascistas, músicos loucos, ouvi todos os sotaques. Conheci gente mitológica, escutei e contei colhudas e narrações de milagres portentosos, naveguei de saveiro pelas águas da baía, fiz samba-de-roda, saí de mulher num carnaval, participei de expedições de pesca, virei cozinheiro, sonhei com revoluções, marchei em passeatas e agitações nas praças, assinei manifestos vanguardistas, desfilei no Sete de Setembro, levei moças para conhecer o luar de Abaeté, tirei muitas vezes nota dez em redação, mas também já tomei zero, decorei Virgílio, pesquei em provas de Matemática, editei suplementos literários, li Sartre, frequentei a porta da Livraria Civilização Brasileira da Rua Chile, onde não conhecer as novidades culturais podia resultar em opróbrio, algumas vezes parei à meia- noite à porta da Catedral, junto com amigos, achando que ouvíamos o fantasma do padre Vieira lá dentro, esbravejando contra os hereges holandeses.

Que mais me deu a Bahia, que mais nos deu, com que outras graças nos rodeou e nos criou? Bem mais fácil seria enumerar o que ela não nos deu. Quanto a mim, é impossível empreender esse inventário, sou devedor, não sou credor de nada. Não há como fazer a lista de tudo o que plasmou minha maneira de ver, sentir e expressar o mundo, de gente de todas as extrações que me ensinou alguma coisa e me tornou o que sou. Não é ufanismo bairrista dizer que a Bahia é um privilégio para quem nasceu nela, ou por ela foi adotado. Em nenhum outro país do mundo se deu a mistura de gente que sempre foi comum no Brasil e continua a ser. E, no Brasil, não há lugar onde essa mistura de corpos e mentes seja tão universalizada quanto na Bahia, onde faça parte tão entranhada da paisagem humana. Como se aqui se realizasse um intento do Criador, passamos por cima de todas as barreiras que foram criadas e ainda são criadas contra a integração da Humanidade. As culturas de origem africana trazidas para cá, em todas as suas manifestações, não morreram aqui, mas se transformaram e se revivificaram, e hoje, apesar de às vezes não percebermos bem essa realidade, espantosa em qualquer outro país, são um exemplo para o mundo. Aqui se dissolveram, numa mistura esplendorosa e fecunda, original e única, raças, crenças, costumes, falas, hábitos, gostos e aparências — é difícil avaliar como isso é precioso e raro, forte e delicado ao mesmo tempo. Basta trazer à mente a História, pregressa e presente, de nossa espécie, para verificar como dificilmente, ou nunca, esse fenômeno acontece. Mas acontece aqui e assim se define nossa identidade. Somos os detentores — e temos o dever de também ser os guardiães — dessa magnífica singularidade. Não somos brancos, negros ou índios; somos baianos. Não pertencemos, no maior rigor da palavra, a nenhuma religião, nem mesmo somos ateus; somos baianos. Não pretendemos ser melhores que ninguém. Mas somos baianos.”

Sim João Ubaldo, somos baianos. E que sorte nossa que você também é.

Alex Rolim escreve às quintas

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