O ativismo de Facebook sempre nos mostra algo interessante quando dá as caras. E, que fique desde já registrado, não tenho nada contra o ativismo de Facebook. Alguma manifestação, se o tema realmente nos importa, sempre vale a pena. E se queremos ser ouvidos, começar discussões, travar diálogos, faz todo o sentido que isso aconteça no único lugar onde dá pra encontrar todo mundo mesmo, a qualquer hora do dia, sem trânsito pra chegar nem hora para voltar.

O que complica o ativismo de Facebook – e qualquer outro – é a questão sobre até onde as pessoas estão dispostas a mergulhar na discussão sobre os assuntos que defendem para sustentar suas afirmações. Pode ser o famoso maniqueísmo água-até-os-joelhos: um dos lados é claramente o culpado, como é que pode, que gente é essa, assim não dá. O maniqueísmo nunca é desejável, mas pode ser a nossa maneira mais orgânica de lidar com um problema complexo – transformar todas as questões numa final de brasileirão. Seja a eleição para prefeito, o julgamento da corrupção ou o conflito internacional, tudo se resume ao lado que você samba.

O preguiça de mergulhar na discussão, que alimenta o maniqueísmo, também alimenta outra posição comum do social-ativista: o pacifismo só-molhei-as pontinhas-dos-dedos. Os maniqueístas entram pelo menos até os joelhos na discussão porque, geralmente, apresentam alguma razão para sustentarem suas posições. O pacifismo de Facebook é uma posição segura.”Tomara que eles encontrem a paz”, “Precisamos de paz”, “Esse povo precisa ficar em paz de uma vez por todas” acaba por ser uma maneira mais sensível de dizer “Foda, né, gente. Fazer o que?”.

O pacifismo é ótimo, viu. Dos grandes posicionamentos já inventados. Mas acho que ele funciona melhor quando reconhece e tenta entender a natureza dos conflitos sobre os quais se manifesta. Sei que depois que O Rappa deixou de ser banda de boa reputação e virou “Pescador de ilusões” na festa de formatura, a pergunta ficou meio esquecida, mas talvez seja um bom momento para voltarmos a falar sobre a paz que nós queremos. O que ela é? Como seria alcançada? Às custas de que?

Os argumentos sobre Israel e o Hamas aparecem agora, ao menos na minha timeline, ao mesmo tempo em que voltamos a discutir a segurança pública no estado de São Paulo e, por extensão, em todo o país (se não estamos estendendo, deveríamos, porque os problemas são semelhantes demais para serem mera coincidência). E é interessante como as posições sobre o problema no Oriente Médio e o nosso problema se contradizem ou se embaralham justamente quando chegamos ao conceito primordial nos dois casos: a paz.

Quando se critica a atuação da polícia de São Paulo, os grupos de extermínio, as execuções de infratores sem julgamento e as de inocentes, sempre aparece alguém (muitos e cada vez mais alguéns) para dizer que isso é “defesa de bandido” e que a polícia comete “alguns excessos”, mas age “como tem que agir” contra a bandidagem, que também não respeita Chico nem Francisco. Ora, mas o que você esperaria da bandidagem? Ética? Respeito ao cidadão? Eu não. Isso eu espero da polícia, uma instituição de serviço público, que eu também pago para manter. Meu dedinho está na polícia. O que ela faz também é responsabilidade minha, porque eu, de uma maneira ou de outra, estou permitindo que ela faça.

Quando falamos da nossa própria segurança e o nosso medo entra na equação, é mais complicado pensar sobre isso, mas, por isso mesmo, é preciso. Virar a cara para não ver o crescimento exponencial de atrocidades e excessos cometidos por uma instituição que mantemos para nos proteger porque temos medo – algo que acontece  com mais força em São Paulo desde a última crise relacionada ao PCC em 2006 – foi a nossa troca faustiana. Ela significou uma diminuição da violência, pelo menos até a nova crise. Mas significou também contribuir para a transformação da cidade no que ela é hoje: um lugar excessivamente militarizado e conduzido por regras de polícia, onde qualquer protesto ou manifestação pública é, na prática mesmo que não na teoria, proibido. É essa a paz que nós queremos?

Sobre Israel e o Hamas, o buraco é ainda mais embaixo. Estamos distantes do problema, sabemos muito pouco sobre ele. Então quando os argumentos não se tornam mocinho x bandido, ou, como chamam por aquelas bandas, vítimas x terroristas, entram no terreno cor-de-burro-quando-foge do “quero a paz”. Que paz, cara pálida? Já pensou no que ela pode significar? Em como ela poderá ser alcançada a curto ou médio prazo? Que tipo de problemas algumas soluções imediatistas podem criar?

A intenção é boa, mas frequentemente, no nosso discurso pacifista pontinha-dos-dedos-molhados, tratamos o conflito israelo-palestino como  “rusga de vizinhos” ou “briga entre religiões”. Essas associações não são somente levianas, são perigosas. Estamos falando de disputas por poder, território, presença militar estratégica, influência regional, interferências em governos, soberanias nacionais, direitos humanos. As religiões são usadas perniciosamente pelos dois lados para conseguir apoio popular e internacional para decisões de motivação muito mais mundana do que supõe a nossa vã teologia. E entender isso é muito importante para falar sobre esse conflito e para pensar no tipo de paz que nós, como comunidade internacional que diz sentir a dor destas pessoas, queremos. Sim, até no Facebook.

Dá preguiça só de pensar nisso, verdade. Mas, se é importante para você, informe-se um pouco. Dê um google antes de argumentar, mesmo que compartilhar o texto, montagem panfletária ou a piada “com fundo político” do Risadas no Face seja mais prático. Elevar o nível da discussão sobre esses temas já é uma boa forma de fazer alguma coisa a respeito deles.

Camilla Costa escreve aos sábados, mas resolveu dar pinta por aqui neste domingo.

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