Reconheço-me – sabem bem meus mais chegados – grande entusiasta da notícia falsa. Porque, do gênero noticioso, é a que cumpre função mais parecida à da arte – qual seja, a de reacordar metáforas adormecidas, a de repôr em perspectiva o discurso que o olhar nosso de cada dia já faz passar por natureza.

Meu entusiasmo é tão grande quanto minha frustração por jamais ter exercido a notícia falsa profissionalmente. Erros sim; nenhum mais gravoso, mas erros já cometi alguns. Jamais porém tive a coragem de inventar um isso que fosse – muito embora o ter sempre usado informações verificáveis não me faça mais patrão da verdade do que um bom falsário.

Minto, aliás: já escrevi sim uma notícia falsa. Foi há alguns anos, quando precisei justificar um longo período que deixei passar sem atualizar um blog pessoal já finado. Contei que um trem desgovernado entrara parede a dentro da redação de cujo veículo de comunicação, o que obviamente impossibilitara nossa equipe de trabalhar.

Enfim: como ia dizendo, tão, mas tão grande é meu entusiasmo pela notícia falsa, que minha fonte predileta de informações ultimamente é o site diário pernambucano, capaz de noticiar maravilhas como “Agora tenho tempo de zerar Resident Evil 5”, diz Serra com o fim da disputa eleitoral ou Estudante desenvolde aplicativo para TV digital que “emudece” Galvão Bueno ou mesmo a ótima Mano Menezes convoca Muricy Ramalho para amistoso contra a Suécia.

Esses títulos são o sonho de consumo de 9 entre 10 editores de jornais. Mas melhores que os títulos são os textos das notas. Têm enganado gente boa, dado trabalho a jornalistas de primeira linha – outro dia mesmo espocou um facebook do amigo Thiago Domenici, editor do venturoso Nota de Rodapé, desmentindo uma nota do dp que jurava que o cantor Luan Santana cancelara uma série de shows no Mato Grosso em apoio ao massacre de índios Guarani Kaiowá. Tudo balela, Thiagones. Balela.

Balela, mas parece verdade. Pois se o dp me cativa, é justamente por conseguir mostrar que mentiras podem passar por verdade da mesma forma que as verdades do jornalismo passam por verdade todos os dias.

Do que concluo: vou me entregar à notícia falsa. Nesta semana, mesmo, tive duas ideias, capaz que façam algum barulho.

Uma diz assim: Médico que receitou cadeados a paciente é afastado das atividades. Vou contar que afastaram um médico que receitou cadeados a uma paciente (pobre) que o procurara desejosa de emagrecer – cadeados na boca, na geladeira, na cozinha…

A outra – bem melhor – diz assim: SP: Alckmin dobra seguro dos policiais. Vou contar que o governador de São Paulo, em firme resposta aos ataques que vêm vitimando policiais paulistas, resolveu dobrar o seguro de vida dos ditos cujos, bem como pagar o benefício para os que morrerem fora do expediente.

Alguém por favor me consiga o contato do editor do diário pernambucano. Antes que eu tome um furo.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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