Porque también somos lo que hemos perdido
Alejandro Iñarritu

Desejei com tantas ganas, e com tamanha fé, e rezei tanto, e para tantos santos, que numa noite por fim aconteceu. Surgiu, vinda da bruma, uma senhora muito bonita, cabelos presos em coque, salto alto e vestido preto ajustado no corpo esguio. Caminhava com passos firmes, e ao chegar junto de mim acariciou com suas suaves mãos o meu rosto. Trouxe-o delicadamente até o seu e pediu que eu fechasse os olhos para, como quem assopra um dente-de-leão, beijar-me a boca – deixando um gosto adocicado nos meus lábios.

Sabe quem sou, perguntou com sua voz diáfana. Eu disse que não. Eu sou Deus, respondeu. Deus? Mas Deus não é homem? Eu sou qualquer coisa, sou o que quiseres, sou como me imaginas, sou tudo o que há. E prosseguiu: tens me perturbado muito, tens me reclamado a toda hora, realmente me chateado, e tens me chamado com tanta sanha que tive que vir realizar teu pedido. Mas advirto que se trata de algo muito perigoso. Antes de conceder teu desejo quero saber se realmente estás seguro.

E eu, com as mãos pousadas em sua cintura, como quem dança uma valsa, respondi no seu ouvido: é tudo o que mais desejo nesse mundo. Quero que apagues toda e qualquer marca dela na minha vida, como se nunca tivesse existido, ou que pelo menos nunca tivesse cruzado meu caminho. Elimine tudo o que me faça recordá-la, porque assim não consigo viver.

Assentiu com a cabeça, olhou-me com seus olhos vivos, armou-se de um sorriso cúmplice, e ainda beijou a minha boca novamente antes de dizer: então assim será. E desapareceu.

Acordei e estava nu. Abri a janela em busca de luz e a paisagem que vi era um descampado sem qualquer sinal de vida. Não havia nada: os prédios, a rua da minha casa, o mar ao fundo; sequer a igreja de São Bento estava. Pensei ainda estar sonhando e fui, meio trôpego, em direção ao banheiro. Ao passar pela sala me apercebi que a biblioteca não existia mais e que os vasos de flores, assim como o aparelho de som, com todos os discos, haviam sumido.

Entrei na ducha, abri a chave da esquerda e deixei cair sobre meu corpo a chuva gelada. E quando já me sentia melhor, vi, tingida de vermelho, a água que escorria pelo ralo. Levei as mãos ao rosto e percebi que do meu nariz jorrava sangue. De nada adiantou levantar a cabeça, o ralo cada vez tragava uma arroio mais escuro.

Já em desespero fechei a ducha e agarrei a toalha azul, que se pintou rapidamente. Sem conseguir estancar o sangramento, cheguei à pia, e vi que nem a escova de dentes dela nem a minha estavam no copo vidro. E quando me olhei no espelho quem não estava era eu.

Ricardo Viel sangra às segundas

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