U Tint Swe é, segundo uma matéria do New York Times, o chefe do gabinete de censura de Mianmar  (Divisão de Registro e Escrutínio da Imprensa) que, ao perceber as mudanças no regime político do país, decidiu, ele mesmo, começar a desativar o departamento.

Para o repórter do NY Times, Tint Swe, conhecido como “o torturador literário”, admitiu, com um sorriso amarelo, que “nós não prendemos nem torturamos ninguém, mas tínhamos que torturar seus textos”. Admitiu também que ajudou a mudar o nome antigo do país, Burma, para Mianmar, o preferido pela junta militar.

Por mais de cinco anos, ele chefiou 100 censores odiados por escritores, artistas e jornalistas do país (cujo trabalho, em um detalhe quase ficcional da história, se empilha nos escritórios da Divisão a ponto de ter que ser borrifado periodicamente com inseticidas).  Mas Swe, em outro detalhe quase ficcional, também era um escritor enrustido de artigos sobre diversos temas. Nunca publicado, talvez porque ele mesmo se censurasse.

Segundo birmaneses entrevistados pelo jornal americano, o ex-militar U Tint Swe mudou durante seus anos como chefe da censura, mas surpreendentemente para melhor. De carrasco convencido e convincente das letras, ele se tornou mais amigável e progressista. Dizia a algumas de suas vítimas que fossem pacientes e esperassem, porque “as mudanças virão”.

U Tint Swe tem um perfil no Facebook, onde publica seus textos, e diz que “o trabalho que fazia não era compatível com o mundo”. Poucos meses depois do início do primeiro governo civil do país em mais de 48 anos, Swe e outros oficiais do Ministério da Informação definiram, eles mesmos, um calendário para o fim gradual da censura – em 2012, ele ajudou a organizar uma conferência sobre o futuro do jornalismo no país.

Gostaria de uma conversa com U Tint Swe sobre o que valeria a pena censurar ou não – Nada, talvez ele me dissesse hoje. Mas desconfio que, responsável por decidir o pouco que podia ser lido e visto em todo um país durante tanto tempo, ele talvez ainda não saiba o que o espera.

Chego a pensar, mergulhando nos detalhes ficcionais e inventando mais alguns, que ele poderia usar sua personalidade de censor de bom coração para ser uma espécie de Dexter da mídia formal e informal. Não funcionaria por muito tempo. É preciso ter uma sanha castradora que, ao que parece, U Tint Swe perdeu com os anos. E também seria preciso uma boa dose de certeza ditadorial que, acho, ele aprendeu a rejeitar.

Mas, não nego, me senti estranhamente atraída pela ideia.

Camilla Costa escreve aos sábados.

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