Acabei de chegar de (do?) Recife. Uma agradável estadia de cinco dias, e enquanto vocês esquentavam a mufa decidindo quem seria o novo alcaide da Cidade da Bahia, eu tomava sol na praia de Boa Viagem. Abstive-me do pleito não para ter a pachorra de alegar que o atual prefeito não foi escolha minha – afinal não é assim que funciona a democracia – mas simplesmente porque a viagem programada há muito tempo coincidiu com a data do escrutínio. Sou bem desligado com o calendário.

Acompanhar a eleição de Salvador a uma distância segura acabou sendo providencial. Especialmente porque observei bem de perto toda a campanha, das piores que essa cidade já presenciou, e me inquietei bastante com o discurso dos pleiteantes a cadeira do Palácio Thomé de Souza e de suas hordas de seguidores. O desvio das discussões para o âmbito nacional (cotas, aborto, mensalão, alianças) quando o foco deveria ser as questões da municipalidade (saúde, educação, captação e aplicação de recursos, empregabilidade, trânsito) denotava a insegurança e o despreparo dos candidatos diante do desafio. E o esvaziamento das ideias descambou num embate de baixo nível balizado por um viés ideológico que sequer é coerente – e condizente – com a política atual.

Havia quatro anos que não pisava em solo Recifense. De cara, algo me chamou atenção: A quantidade de placas do Governo Federal adornando as obras que se espalham não apenas pela capital pernambucana e Olinda, mas também por toda Região Metropolitana. A cidade também está mais bem cuidada, mais limpa (apesar do crônico/histórico problema dos canais que atravessam a urbe), o aeroporto é excelente e a rodoviária dez vezes maior e mais moderna que a de Salvador. O metrô ainda é insuficiente pra demanda, mas funciona. Claro, nem tudo são flores. O trânsito é caótico e a violência parece endêmica. Mas os espaços públicos estão mais cuidados que os nossos, desde a orla até o Recife Antigo.

Com a implantação de Suape e a quantidade de obras, o volume de empregos aumentou e a taxa de crescimento atinge níveis chineses.  Com a balança pendendo tanto para os aspectos positivos era de se imaginar a reeleição do atual prefeito, rumando assim para 16 anos de administração petista, correto? Negativo.

Isso porque a indicação para candidato da situação local apontou o nome de Humberto Costa, ex-ministro e membro catedrático do time de Lula. Não importou a excelente aprovação de João da Costa (o atual) nem a temeridade de enfrentar o candidato de Eduardo Campos (PSB) – outro do time de Lula, ainda que na condição de coligado – que tem aprovação estratosférica no Estado. O resultado foi uma coça histórica ainda no primeiro turno, perdendo a cadeira do Palácio Capibaribe para um desconhecido do meio político, de perfil mais administrativo, ex-presidente do porto de Suape, Geraldo Júlio do PSB de Campos.

Sempre enxerguei Salvador e Recife como cidades-estado. Não me refiro unicamente às particularidades político-administrativas, mas principalmente às demandas locais que precisam atender à cultura, ao modo de interagir do povo com a cidade, à necessidade de crescer sem perder o encantamento que elas – históricas e vanguardistas, modernas e abençoadas pela natureza – emulam nos seus moradores e turistas. Num paralelo à cultura helênica Salvador seria Atenas, mais receptiva a contribuições externas, mais civilizatória. Recife é mais austera, Espartana, de costumes e gestos mais fechados. Especialmente para gentios como eu, que parecem ter escrito na testa em letras garrafais: BAIANO. Não tivemos nossa Guerra do Peloponeso, mas a rivalidade foi bem condensada neste genial texto do editor chefe do Purgatório.

Por isso não posso concordar, nem deixar de externar minha contrariedade com os comentários que li quando voltei. Não podemos classificar o povo de burro, ou desmerecer a condição/interesses de quem votou neste ou aquele candidato. Só quem é militante – e quem milita se limita, como naquela pichação de muro dos anos 80 – é que deve defender de forma tão beligerante este ou aquele partido. Afinal, vem daí seu ganha-pão.

Não foi a greve dos professores, não foi a greve dos policiais, não foi a inércia administrativa do governo da Bahia, não foram os escândalos de corrupção do presente nem as ações autoritárias do passado que definiram o pleito. Foi o discurso vazio e a inépcia daqueles que definem quem colocará seu nome à baila para aprovação do povo que determinou o rumo das eleições em Salvador e Recife. Faltou entender que antes de um projeto para o Brasil, o povo destas cidades quer um projeto para seu lugar. São muito mais que cidades, são pequenas nações.

É preciso entender como funciona a dinâmica local e preparar pessoas e projetos para atendê-las. Botar a culpa no povo por suas escolhas é fácil. Difícil é passar por cima de vaidades pessoais para tornar essas escolhas mais simples.

Alex Rolim gosta de viajar e escreve às quintas-feiras

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