A música é uma forma vigorosa de expressão. Para muitos transcende a mera representação artística, a distração peculiar, a fruição que liberta e esvaece os malogros da vida cotidiana. Mais que válvula de escape, se torna um caminho único, estrada de tijolos amarelos, que conduz e direciona o gênio inventivo de quem a usa para exprimir e despertar sentimentos, fomentar discussões e defender concepções. Às vezes serve até para dançar e alinhar corpo e mente em um compasso.

E não é só isso – o que já não é pouco. Não sou de dar valor a pesquisas, pois acho que recortes, enquadramentos, formulários, tratamentos estatísticos, diagramas de Pareto e afins empobrecem e encurralam as discussões em becos poucos imaginativos. Mas essa última que aponta o arrocha como o gênero musical mais popular da Bahia contemporânea – MPB não conta, esse retalho indefinível entre Kleiton/Kledir e Pinduca – é algo que se desenha desde o surgimento do gênero, nas casas de meretrício da zona de Caroba, na cinzenta, enfumaçada e enladeirada Candeias. O arrocha tem tudo a ver com a Bahia do novo milênio e não cheguei a essa conclusão de uma hora pra outra. Apertem os cintos, pois derivarei um pouco. Acompanhem-me.

Quando tinha algum tempo disponível para frequentar os bancos escolares da prestigiosa Faculdade de Comunicação da UFBA – ou seja, quando isso não atrapalhava minha rotina de interação social no bar CHULETA [caixa alta copidesque] – acabei me envolvendo nem uma atividade curricular que propunha acompanhar e registrar o desenvolvimento desse novo – na época – gênero. Mapear público, visitar os locais das festas, registrando tudo em vídeo para documentário. Não sei se o dito cujo ficou pronto de fato, talvez apareça algum trecho quando eu for homenageado no ARQUIVO CONFIDENCIAL do Faustão. Também não guardei os dados coletados e nem decupei as entrevistas. Porém o que presenciei no Largo do Caranguejo em Itinga, no próprio Caroba de Candeias e na Rocinha do Pelourinho naqueles idos de 2004 me dava a certeza de que o arrocha surgira não apenas para ficar, mas para tornar-se hegemônico.

Certeza que cristalizou quando instituí uma noite de arrocha na grade musical do bar que comandei entre 2006/2008. Era a noite de maior sucesso e público, casa movimentada e consumo em alta. Era a alegria daquele arrabalde onde o bar era atração.

E porque o arrocha é a expressão musical que melhor define a Bahia atualmente?  Eis alguns pontos:

  • O ritmo se consolidou através da divulgação informal, sem apoio de gravadoras, subjugando até o esquema jabazeiro das rádios e da indústria do axé. Salvador é a capital da informalidade, tem camelô em todo canto da cidade, vendendo cerveja no isopor e CD pirata. É a única alternativa de inserção de boa parte da população na cadeia produtiva;
  •  São poucas as composições próprias do gênero. Os sucessos do arrocha são covers, versões de músicas de outros ritmos do passado ou até do presente. Como a Soterópolis, na falta de imaginação para desenvolver algo peculiar e autêntico, opta-se por plagiar outros modelos. A nossa orla deveria ser como Miami ou Copacabana e não consegue ser parecida com nada. E é pior do que já foi um dia;
  • Falta talento, sobra canastrice. Cantor de arrocha canta com o DELAY no máximo – daí aquele efeito de videokê que camufla as imperfeições vocais dos cantores. Na Cidade da Bahia tornou-se lei das ruas: Pouco importa se você é apto a fazer algo, basta enganar. É o suficiente. Cenário político local confirma essa tese;
  • A SOFRÊNCIA [novo vocábulo do baianês, auto-explicativo] como elemento redentor das frustações amorosas. Salvador desponta em outras pesquisas [não dou valor, porém recorro novamente ao recurso] como a cidade com o maior número de separações, onde consome-se mais cerveja, onde a maioria dos homens traem e onde reside a maior concentração de  mães solteiras. Acrescente um teclado infernal, um cantor esganiçado e voilà: Temos um baile de arrocha.

O arrocha é música ruim? Não pretendo exercer juízo de valor sobre questões de gosto, nem aprofundar-me em seara que não domino. Não sou crítico musical. Entretanto recomendo que ouçam o novo trabalho do sempre genial Tom Zé, Lixo Lógico [adquira aqui]. Nele o tropicalista se debruça em esmiuçar o movimento do qual foi parte fundamental nos anos 60.

E que diabos tem a ver Tom Zé com arrocha agora? Absurdamente nada. Entretanto, Tom já compôs discos incríveis dissecando outras vertentes musicais como Estudando O Samba [1976], Estudando O Pagode [2005] e Estudando A Bossa [2008]. No fantástico Lixo Lógico lançado agora ele vai além e explica definitivamente a Tropicália com uma teoria original que, para além da verborragia prosaica, está plenamente justificada e musicada nesse novo trabalho. Aos 75 anos, esse irreverente iraraense prova que música não é apenas uma forma de expressão, é um fluxo vital para manter o equilíbrio da vida. Um arcabouço que carrega nossas heranças e desvela nossa capacidade de interagir com as possibilidades do mundo ao redor.

Partindo deste ponto de vista é desolador saber que a atual Bahia nos ofereça o arrocha como gênero musical de maior repercussão. É a prova cabal de que nosso legado será apenas um movimento peculiar de quadris, com os pés fincados no chão desenhando letras imaginárias. Para tanto, basta usar o centro primário motor do lobo frontal encefálico: Vai no U e volta no W [ou  “e” minúsculo?], como ensina o tutorial da dança arrocheira.

Parece simples

Nada mais conveniente, aliás. Um dia talvez completemos o alfabeto. Neste dia, quem sabe, usaremos o cérebro todo para escutar música.

Alex Rolim escreve às quintas-feiras

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