É noite. Chego na varanda. Olho em todas as direções.

Já não somos guiados pelas estrelas.

Um mês antes, cheguei de avião e a cidade me impressionou: parecia ter sido derramada de um copo por um movimento brusco e sem cálculo. Prédios, prédios, prédios.

Há mais prédios do que árvores. Não se deixa mais crescer as árvores – não mais do que os prédios. Acima de cinco metros, tudo é cinza e urbano.

Agora é noite. A cidade sobe a serra à esquerda de minha varanda. A cidade subirá um dia até o céu?

Está tudo engarrafado. Plantas no jardim botânico. Sentenças na Academia. Personalidades dentro do espírito do tempo.

O excesso não é questão de espaço, mas de circulação. Os carros são apenas a última versão disso. Apenas a língua está solta na mão dos jovens. Tec tec tec. Mas é uma liberdade de playground: falar é o novo ter. Tec tec tec. Publique-se a lenda.

O plano da cidade é um acidente. Parece que bateram cimento e pedra no liquidificador gigante e derramaram serra abaixo. Feito líquido viscoso se impregnou onde pôde. Feito vírus se reproduz metálica e silenciosamente. Feito a espécie humana só propagará através de seus iguais.

Neil Armstrong fez o futuro realizando um desejo antigo.

Não há nada mais ultrapassado do que amanhã de manhã. Os jornalistas são apenas a última versão disso.

Depois de conquistar o oeste a américa do norte venceu a corrida contra o leste inventando um rumo novo, que tornou todos os mapas obsoletos. Não, o sul não tem nada a ver com isso.

Armstrong foi Caminha e foi Cortéz: foi bárbaro e sedutor na sua maneira dar ao Rei a noticia de uma nova conquista.

O futuro importa tanto porque tem o poder de nos fazer esquecer do passado. O futuro tem uma vantagem: pode ser visto daqui sem nem mesmo precisar virar a cabeça e olhar para trás.

No morro à esquerda, na serra que vejo da varanda, casas escalam a pedra, é noite, estrelas: a uma certa distância tudo parece ter a mesma distância.

Não sou mais guiado pelas estrelas, sou sinalizado pelos prédios. Pare aqui. Vire ali. Espere. Espere mais. Olhe para o lado. Prenda a respiração. Finja que não é com você. Vote em mim.

Neil Armstrong não colonizou o céu, ele viu de perto o nada. Porque la em cima tudo é amplo e só. O futuro é conquistar aquilo que nem sabemos para que serve. O segredo do presente é ter sem ter dimensão do que se tem.

A luz das estrelas mortas não me contradiz. Nem ela nem a luz elétrica que vem das casas do morro.

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