Corpo em decúbito dorsal, marcas de espancamento, perfurações à bala nas costas e esfaqueamento no abdômen, abandonado em uma madrugada fria de julho. Assim foi encontrada há um ano a jovem Kelly Sales Silva, 21 anos, nas cercanias de Lauro De Freitas. Uma história como tantas que estampam os jornais e fomentam os diversos programas televisivos mundo-cão do noticiário baiano.

A narrativa, entretanto, não termina desta forma – tampouco começa. Poderia justificar a confusão alegando que é um recurso estilístico para ilustrar a conturbada vida de nossa anti-heroína. Heroína? Porque não? Pelo menos é assim que sua imagem ainda é retratada nos subúrbios da Soterópolis. Um ano após sua morte continua sendo admirada por meninas tão pobres e sem perspectivas como ela. Para quem sempre viveu à margem da sociedade, pôr-se a margem da lei não é apenas uma opção. É quase uma necessidade.

Banditismo por uma questão de classe? Nem tanto. Kelly Cyclone, alcunha eternizada na mídia, entrou para o crime por envolvimento carnal com chefes do tráfico. Ainda que a única acusação oficial contra ela tenha sido a de participar da famigerada “Festa do pó”, recaem fortes suspeitas de que ela tinha posição importante no esquema de distribuição da droga.

Midiaticamente era sedutora. Tatuada, acessórios de marca, seguidores nas redes sociais, declamada em versos de pagode e usando linguagem e expressões características da periferia, era a representação do único triunfo que resta a uma boa parcela dessas pobres moças desesperançadas: Uma sub-celebridade, que por vias tortas ou não, alcançava a visibilidade social que muitas sonharam. Uma “vida loka” e arriscada, mas nem por isso menos vida, nem menos desejada.

Boatos indicavam a pretensão de Cyclone ingressar na política candidatando-se a vereança nestas eleições. Pereceu um ano antes.

Morreu como símbolo iconográfico, como estatística policial e como bandeira a ser hasteada por outras meninas que cada vez mais cedo, e em maior número, debandam para a marginalidade.

O que me fez recordar da jovem ameríndia Malintizin, citada nas cartas do conquistador espanhol Hernan Cortez para o imperador Carlos V durante o século XVI. Malintzin, que já era bilíngue antes da chegada dos espanhóis, tendo sido fluente em seu idioma materno, o nahuatl (idioma dos aztecas) e yucateco (uma das línguas do tronco Maia peninsular), aprendeu também a falar o castelhano em contato com os espanhóis. Assim, dotada dessas habilidades linguísticas e, depois, também na condição íntima de concubina de Cortez, ela veio a auxiliar grandemente na devastadora dominação dos povos das terras da América Central pelos invasores ibéricos.

Entre Malintizin e Cyclone mais de meio milênio de diferença histórica e cultural.

Mas, quem sabe, a mesma inquietude, sofreguidão, anseio por algo que as tirassem de um mundo que não lhes satisfazia. Uma ambição capaz de destruir civilizações e arrebatar vidas.

Uma ambição dissoluta de amar e viver.  A força mais regaladamente destrutiva que pode habitar o coração de uma mulher.

                                                                                                                                                                                                        Alex Rolim escreve aos sábados

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