Uma amiga do teatro me escreveu contando: pôde assistir o ensaio de um grande mpbista, graças ao trabalho que tem. Não havia público, e essa sensação de proximidade e anonimato ela não vai esquecer tão cedo.

Fez porém uma ressalva: por que ,ao invés de sentar e ouvir, seus colegas se interessam mais em olhar (tirar fotos) e ter (pedir autógrafos)? Ela está contente com sua escolha pessoal: ficou na memória.

Também deixarei em casa minhas ótimas memorias de Total Recall (1990) quando for assistir à refilmagem, prevista para este ano ainda. Trata-se da obra-prima de Paul Verhoeven que no Brasil se chamou “O vingador do futuro”.

Entendo a ideia de refilmar. E não estou falando do óbvio, do fato de já haver, no original, ação suficiente para ser reciclada num genérico B com marketing AAA.

Penso em outra coisa: Total Recall é um dos filmes mais mal-compreendidos da história.

É muito fácil ficar só no corre-corre pega-pega que opõe o herói Douglas Quaid (Schwarzenegger) a uma grande corporação gananciosa e sem escrúpulos. Fácil porque já vimos isso inúmeras vezes; mas também porque até nesse primeiro nível Verhoeven é talentoso, e entrega um filme divertidíssimo.

Se você já viu e gostou, sugiro rever para tentar descobrir os pontos de fuga do filme, os momentos em que a história vira seu próprio espelho, em que o assunto vira crítica do assunto, em que o filme (literalmente) para e diz: “hei, eu sou um filme”. Não é só que as duas narrativas sejam extremamente bem costuradas; elas geram uma a outra, assim como no roteiro a história do herói reflete a história do seu duplo. Há algo de Hitchcock (Vertigo) e de Godard (Pierrot le fou e outros) nesta maneira de pensar.

Um dos problemas de Douglas Quaid é descobrir que suas memorias podem ter sido implantadas artificialmente pela tal companhia. Mas sua situação não é tão ruim perto da nossa, hoje. Porque parece que escolhemos nós mesmos implantar nossas memórias. Falo dos colegas de minha amiga, mas também dos visitantes de museus e igrejas aqui de Paris. A palavra, que implica efemeridade (um visitante eterno é um contra-senso), ganha uma força inédita nesses tempos.

O tempo de ver uma pintura ou um altar resulta de uma equação. Soma-se 1) o tempo de encontrar um ângulo bom com 2) os instantes necessários para a máquina registrar a foto. E ainda saem dizendo que é preciso ir porque “há tanto para ver…”.

Que tudo que eu disse não soe arrogante. Não sou conhecedor de arte nem de arquitetura religiosa. E não é preciso sê-lo para se dar oportunidade de ver, de verdade, as coisas. Afinal, não é para isso que viajamos?

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Começo aqui uma campanha: quando Daniel Craig quiser renunciar ao posto de 007, que seja Michael Fassbender a assumi-lo.

Diego Damasceno escreve às terças

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