Você já ouviu falar de Mazagão, no Amapá? (Não vale googlar agora.)

Se o caso desta cidadezinha é único, não sei dizer com segurança — mas, certamente, é uma raridade: não é todo dia que se sabe de uma cidade migrante.

Isto mesmo, Mazagão é uma cidade que mudou de país. E mais: mudou de continente. Mais ainda: no século XVIII.

A história é assim: pouco depois do Descobrimento do Brasil, os portugueses fundaram, na costa do atual Marrocos, esta fortaleza, chamada Mazagão, vilarejo isolado, que nunca teve muito como se desenvolver e que, após dois séculos, não chegava a ter dois mil habitantes.

Um belo dia, nos idos de 1769, o sultão Mohamed, em meio ao longevo conflito entre católicos europeus e muçulmanos afro-árabes, decide tomar Mazagão, para onde envia um exército de cento e vinte mil homens.

Sem a mínima chance de vencer a luta, a Coroa portuguesa só vê uma alternativa para salvar seus súditos: retirá-los de Mazagão (olha aí, a tradição de fugir da cidade quando o bicho pega não é inaugurada com dom João, não). Assim, as quatrocentas e tantas famílias foram enfiadas em barcos e partiram para Lisboa.

Só que partiram para uma Lisboa recém-devastada pelo terremoto de 1755. Uma cidade sem condições de lidar com a população que tinha, veja-se lá de receber mais gente.

O que fazer? O que fazer com as famílias que estavam vivendo há meses nos barcos às margens do Tejo, num arremedo insalubre de Veneza?

O governo do Marquês de Pombal, que, desde 1750, passava por exaustivas negociações de fronteira com a Espanha em relação às colônias da América do Sul, e que estava em meio a uma hercúlea empreitada de demarcação física destes limites, tem uma ideia: mandar os mazaganenses para o norte do Brasil, para povoar e proteger território tão pouco habitado. Dois coelhos abatidos com uma só cajadada.

Mazagão então veio, em 1770, instalada nos arredores de Belém. Curiosamente, mantinha-se, desde os tempos vividos nos barcos, a mesma hierarquia social entre as famílias. Ninguém aproveitou para fazer uma pequena revolução. Talvez neste caráter unido dos mazaganenses tenha-se visto o potencial para, no ano seguinte, fazê-los migrarem de novo, para o outro lado da Ilha de Marajó, já no território que hoje é Amapá, ainda no intuito de transformá-los em cidadãos protetores das fronteiras.

Mas a Nova Mazagão, cuja mudança só se completa em 1783, não dá conta da missão a que seu povo foi imbuído, com a melhor lábia profética, aquela das promessas de grandeza e de infalibilidade. As dificuldades de se viver em plena selva fazem brotar, nas pessoas, o ressentimento da identidade amazônica e a nostalgia dos tempos passados. Nos séculos seguintes, Mazagão: a cidade que atravessou o Atlântico — como tão bem intitulou Laurent Vidal o livro que conta esta história (Martins Fontes, 294 p., R$64,50) — não teria melhor sorte; passaria a vivenciar um fluxo de saída dos descendentes originais, compensado pela chegada de remanescentes quilombolas.

E, no fim, tornar-se-ia uma, mais uma cidadezinha desconhecida, de passado pitoresco. Uma cidade invisível, como aquelas do Calvino.

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Breno Fernandes encerra hoje sua participação especial, no lugar de Diego Damasceno (em férias), mas promete voltar mais vezes.

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