O colombiano Juan Gabriel Vásquez escolheu um dos episódios mais absurdos da história recente de seu país para abrir seu último romance (El Ruído de las Cosas al Caer, ainda inédito no Brasil). O escritor narra a perseguição aos hipopótamos de Pablo Escobar. Nos anos 80, o narcotraficante mandou trazer animais de todas as partes do mundo para o zoológico particular que tinha na Fazenda Nápoles, próxima de Medellin. No apogeu, o lugar teve mais de mil espécies diferentes – algumas raríssimas- e uma réplica tamanho real de um dinossauro.

Em aviões cargueiros chegaram girafas, elefantes, flamingos, macacos, zebras, búfalos, tamanduás, leões, tigres, camelos e um casal de hipopótamos para embelezar o zoo. Abandonados após a morte do milionário dono, os hipopótamos quebraram as cercas da propriedade e se espalharam como pragas pela região, destruindo plantações, matando animais e aterrorizando moradores. Reproduziram-se tanto que no final da década passada, quando já eram mais de 30, passaram a ser caçados por questão de segurança, com o aval do governo.

Em seu livro, Vásquez recupera o período do medo na Colômbia, conta sobre a caça aos hipos, e também narra como o zoológico de Escobar se tornou um mito em seus tempos de infância. Descreve como algumas crianças “afortunadas” tiveram o privilégio de conhecer a Neverland do maior narcotraficante do mundo.

Toda a história de Escobar é tão fantástica que custa acreditar. Foi apontado pela revista Forbes como uma das dez pessoas mais ricas do mundo; propôs pagar a dívida externa de seu país; construiu seu próprio presídio de luxo e nele organizava festas, jogava futebol com os atletas da seleção nacional e comandava seu negócio; em um de seus esconderijos, queimou cerca de 2 milhões de dólares em uma fogueira para que a filha não passasse frio, mas não pode impedir que ela e os demais familiares passassem fome.

Conto tudo isso para sugerir aos que se interessam pela história da Colômbia  a leitura dos textos de Vásquez. Além de seus três romances e um livro de contos, há também um ensaio muito interessante no qual o escritor propõe uma interpretação diferente de Cem Anos de Solidão. O texto se chama El arte de la distorsión.

Recentemente entrevistei o escritor colombiano, que advogou por uma mais proximidade entre o Brasil e os demais países da América Latina. Diz ele que há uma falta de comunicação “absurda” entre nós e que já passou a hora de quebramos essa barreira. Durante anos achei que o idioma era o que impedia nossa comunicação com os vizinhos, mas hoje creio que a questão é muito mais política e ideológica. Derrubar esse muro – construídos por nós mesmos -, nos fará perceber que somos muito mais parecidos do que imaginamos. Ganharemos todos.

Ricardo Viel escreve às segundas

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