Tive na semana na casa de vó. A tarde ía pelo meio, e eu vinha passando na porta, aí entrei.

É bom. Prosa com chimango quente saído do forno e café (ralinho, que forte meu avô não bebe, reclama). Derreti junto com o requeijão que passava no biscoito quando me trataram de “visita importante”.

Depois teve uma hora fiquei beirando na porta da cozinha, e o olhar correu para as fotos que minha avó bota na entrada da casa.

Tem dos filhos todos, dos netos-home, das netas-mulé, de todo mundo.

E tem uma já velhinha, num porta-retrato redondo, branqueando já de tempo. Aparece ela e vô e minha mãe e os tios em cima da cama, tudo curiando um bebezinho aninhado no meio.

A foto é a mesma de há 28 anos. E o bebê, este vosso criado.

Não sei se tem serventia, mas aí pensei nisso aqui: que a pessoa fica sendo para sempre, para quem a conhece, do jeito que era quando esse outro a conheceu.

Que a gente pode até lutar – e é bom que o faça – para que as imagens de quem conhecemos mudem no registro de dentro da gente com o passar das idades. Mas que é difícil – porque a memória é afetiva, escolhe por ela mesma como quer se lembrar de cada qual, e pronto.

Que a gente pode até lutar – e é bom que o faça – para deixar de ser, para os outros, o que fomos um dia, o que os outros teimam em pedir sempre – mais por vício do que por maldade – que sejamos. Mas que é difícil – por causa da força que o olhar dos outros exerce na gente, mas sobretudo pelo duro que nos dá essa história de mudar.

(Arrisca que a gente passe a vida inteira lutando para se descolar daquela imagem que recebemos dos olhos dos outros em pequenos.)

(Pior: arrisca a gente conseguir e, depois de ter vencido a tal luta, se dar conta do injusto que é privar vô e vó e mãe e pai e os tios daquele bebê tão amado.)

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos e, excepcionalmente, nesta segunda-e-terça

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