Seria preciso começar dizendo como estava o dia, para dar o entendimento do frio, do calor ou do vento. Ou principalmente da chuva, estado mais particular.

Chovia.

Acho que não vejo direito, não nítido, não definido, por isso não posso descrever de forma precisa. Se tirasse uma foto ou gravasse, para estar já distante do acontecido, sem fazer parte.  Nem assim. Sempre parece que estão se movendo as coisas, de uma maneira como se piscassem, como se carregassem aquela mancha que toma os olhos depois que passam muito tempo vendo o sol.

Talvez por isso tenha sempre agradecido noite após noite ainda não ser cego.  Ou ainda estar são.  A vida trata-se de adiar a loucura, o homem dizia bêbado na televisão, e todo o seu jeito mostrava que não tinha mais o que adiar, o que me assombrou.

E eu que por tanto tempo resisti, talvez não precise mais. Já posso estar cego, já posso ser louco.

Chovia na noite em que voltei ao hospital, o que não era acontecimento, mas repetição enfadonha, por eu ser velho. Nem me tumultua mais o peito pensar na morte, de tanto que a espero. Minha doença generaliza-se — é o próprio tempo, sou eu.

Ficaram todos me olhando naquele quarto frio, imaginando que esta vez fosse a derradeira.  Por isso quando o médico depois de uns poucos dias falou que eu poderia voltar para casa, vi a decepção em seus rostos, assustados como se minha vida excedesse.

Penso se voltará a chover quando for ao hospital para ter um fim completamente assistido.  E antes disso, decidi escrever minhas memórias, apesar das dificuldades de descrição. Esse é o capítulo um. Ou único.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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