É com enorme prazer que cedo meu espaço de hoje ao amigo David Elias, guatemalteco, cidadão do mundo e maltratador de Olivettis que atualmente reside em Buenos Aires.

Aeroporting

Os aeroportos têm a saudade no ar. É possível senti-la. Deixamos pedaços de nostalgia em todos os lugares, mas sobretudo nos aeroportos. Não falo dessas pessoas que viajam todos os dias por trabalho, nem do turista ocasional, mas sim daquele que parte com um destino como única certeza.

Sempre pensei que em todos os lugares há alguém indo à merda ou com vontade de ir para deixar alguma coisa para trás, e vi e vivi particularmente isso nos aeroportos. A despedida, a fila do check-in, o desaparecer atrás da porta de “só passageiros”. Algum choro, a espera na porta do embarque, o frio no estômago quando o avião levanta voo, a paisagem que vai ficando cada vez menor até sumir embaixo das nuvens.

A chegada promete. Apropriar-se de novos lugares, novas experiências, novos sentimentos, novas melodias, novas rotinas. Sentir-se no momento e lugar perfeito, como se existisse tal coisa. O ser humano está desenhado para idealizar de um prato de comida até as outras pessoas.

E é possível identificar o momento em que se começa a sentir falta. A saudade é algo que se sente uma vez na vida e a partir desse momento não vai embora. Em algum momento ela sufoca, cansa, consome. É quando se toma a decisão de mandar tudo à merda e partir de novo. Despede-se, ou não, e coloca-se o pé na estrada. O que se quer é voltar, ver a paisagem, respirar o ar, sentir esse cheiro, ver alguém, abraçar alguém, rir com alguém, beijar alguém (porque não há saudade sem alguém, mas às vezes acontece de que esse alguém não é para você, ou não está, e essas situações são muito complicadas) e finalmente se chega. Vê, encontra, sente, abraça, ama e é amado, e é feliz.

E muito tempo depois percebe-se que a saudade não foi embora e que agora sente-se falta do outro lugar porque a partir do momento em que se foi embora houve um reparto em três: o lugar deixado, o lugar para onde se foi e o lugar para o qual se volta, que já não é o mesmo deixado, porque o tempo passou, aconteceram coisas, pessoas partiram, pessoas chegaram, pessoas morreram, pessoas nasceram, e se está permanentemente indo, idealizando, querendo e sentindo saudade; de maneira que se vai e se vem, conhece e caminha e diz oi e sorri e quer e ama e deixa de amar e se despede e sofre e ama outra vez e sente saudade das novas pessoas e das de sempre e assim vai vivendo até que chega o momento de embarcar.

“Passageiros do voo COPA 279 com destino a cidade de Buenos Aires. Embarque pela porta 15”


Ricardo Viel detêm a concessão do espaço do Purgatório às segundas e às vezes o cede a convidados como David Elias

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