Li que, em Tóquio, um projeto pediu às pessoas, via Twitter, que elas sugiram animais, quaisquer que sejam. O grupo que organiza o projeto – e seus cartógrafos de plantão – se encarrega de transformá-los em rotas de bicicleta pela cidade que tenham a forma dos animais quando vistas de cima. A capital do Japão virou, segundo o texto que eu li, um “zoológico” onde é possível encontrar um panda, uma zebra, um coala, um leão, um flamingo, uma baleia ao fazer o seu caminho por ela.

Se os caminhos em formato de animais fossem traçados com uma tinta branca ou de qualquer cor, se fossem campos onde clareiras fossem abertas pelo caminhar/pedalar das pessoas, Tóquio seria uma dessas cidades quase-imaginárias para a qual se poderia criar uma história e inventar um pseudônimo.

Dir-se-ia dela que as pessoas tantas vezes trilharam aqueles caminhos que os animais se levantaram das ruas, ou que os projetos de rotas se transformaram em personagens diversos, constelações, imitações de quaisquer coisas que as pessoas quisessem ver, traçados de desenhos por onde elas sempre quiseram caminhar, até que a cidade fosse um emaranhado de ilustrações aéreas que ninguém enxergava de cima, e sim do chão, com os olhos fixos adiante para imaginar o resto do caminho e, assim, construí-lo.

Fosse eu Ítalo Calvino – e que pena, estou tão longe de ser – teria orgulho de Tóquio. Como tenho um pouco de orgulho de todas as cidades que tentam ser aquilo que as pessoas que a fazem gostariam que elas fossem.

Ao reler o texto com mais atenção, descobri que o “Tokyo Zoo Project”, que é de fato um sucesso na cidade, foi criado para a campanha publicitária de um GPS para bicicletas. Pensei em abandonar a ideia. Mas talvez esse também fosse o final de uma Tóquio zoológica de Calvino.

Camilla Costa escreve às quintas-feiras.
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