se você der dois passos mais pra trás eu juro que não tento mais, bato a porta, abro o chão na frente, meto a cabeça no meio da rua, abro o peito pra o que vier, sumo no oco do mundo, e você vai ficar suspirando pensando maldita hora que ele bateu a porta e eu estou só, e então eu despejarei toda a minha ternura no ombro de quem vier, entendeu?, de quem vier, porque de que adianta esses seus quadros lindos na parede, tudo cópia, tudo c-ó-p-i-a, se você não consegue ser linda comigo, deságua em carinho com o vaso de flor na janela e fica nessa dureza da porra quando digo ver ser minha, e você vem com a boca cheia de que eu sou cafona, cafona é você dizer que o que vale é o que as cópias provocam, e tal, mas um Van Gogh cópia?, prefiro meu livro de poesia da Alice Ruiz, alguns haicais, uma taça de vinho e não ter que ficar dando murro em ponta de faca toda vez que a gente senta no sofá e minha alma rasteja no chão da sala implorando um quêzinho de carinho, ou você acha que eu vou me alimentar sempre da sua risada, da sua história de fazer tempero diferente para uma comida DELICIOSA com pétalas de rosa, onde já se viu temperar comida com pétalas de rosa, onde?, e eu fico aqui, todo derretido, e você dando passo pra trás, não dá liga, viu?, não dá liga assim, não, me diz então o que faço, calma?, toma, eu trouxe aqui um texto que fiz pra você de coisa de primeiro beijo, eu lei em voz alta, e não adianta você colocar esse dedinho na frente da boca, não dá pra fugir da palavra, honey, não dá, desce desse castelo / que é dia / e um fio de esperança / engrossa o rio, então, começa assim o texto, fiz verde de vontade de você, é só você sorrir e eu já sei, já sei, já sei.

Na calçada do prédio, um vaso de flor esbagaçou-se.

Carmezim escreve às quartas-feiras.

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