Não sei os de vocês, mas meu coração bate sempre mais forte na volta da banda pro bis.

Sei não por que. Talvez porque resida na iminência do fim aquela raspinha de tacho do prazer, aquele quinhão do sentido que nunca se chega a atingir nas condições normais de temperatura e pressão.

Ou talvez pela graça que vejo naquele auspiciado mise-en-scène: dá-se a última baquetada da última canção, e fica soando um prato ou acorde final; aí o público aplaude; aí os músicos saem; aí as luzes se apagam, e a platéia levanta; aí os músicos voltam (às vezes malemal nem saíram); aí o show recomeça. E então parece que tudo vai acontecer de novo, só que agora mais intenso do que até então. Sempre assim.

Vejo graça nisso do mesmo modo que vejo graça em rever o mesmo filme, em ouvir a mesma canção, em estar com a mesma mulher. É que sou homem afeito à repetição, talvez pelo fato em si de descrer que ela exista: o prazer do que chamam de “mesmo” é bem outro: o de reconhecer o já conhecido. É que sou um simplório.

Ou talvez porque a volta pro bis seja uma metáfora boa daquela querela eterna que o homem tem com a morte. Sim, porque no mais das vezes é assim: a pessoa está ali, vivendo distraída e bestamente, quando a danada da morte vem (em forma de acidente ou de enfarte do miocárdio, ou de um parente querido que parte, ou de um amor que se acaba) e nos quase-mata. Aí a gente se refaz, sabe-se lá como, e então o resto da vida que vem depois fica tendo uma intensidade tão tremenda, que a pessoa passa a viver um par de anos com mais vigor e alegria do que o par de décadas inteirinho que recém-passou.

É que a volta pro bis transporta a gente para outro tipo de tempo – o eterno, do mito. É que depois da volta pro bis, a gente fica, talvez, imortal.

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos

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