“Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá” declama o refrão de um dos inúmeros sucessos do baiano Gilberto Gil. Certamente esse seria um dos dez mandamentos caso Moisés fosse um sertanejo que achasse a tábua das leis no Morro do Pai Inácio.

Mas a história conta que Moisés era hebreu e deixou a tábua de pedra espatifar no sopé do Sinai. O que não influenciou em nada o sertanejo Gil cristalizar como música a mais baiana das verdades universais: Não é preciso ter fé, pra fé te acompanhar.

Quem já leu qualquer livro do ateu Jorge Amado percebe a aura mística que rodeia seus romances.  Fé aqui está acima das crenças, é muito mais que isso, é a confiança que de qualquer ajudinha é não somente bem-vinda como essencial. Não é preciso crer em nada, mas certamente não é auspicioso desafiar nem desagradar o que se desacredita.

E aquele papo que fé, política e futebol não se misturam? Esqueça. Aqui na Cidade do Salvador da Bahia de Todos-os-Santos, é hábito político lançar candidatura em festa religiosa de largo. Se não o fizer, esqueça qualquer pretensão na carreira. Banho de pipoca e alfazema são aliados que ninguém pode prescindir. Independem de credo ou legenda.

No futebol então, terreno sagrado de mitificações supersticiosas, qualquer crendice é bem vinda.  João Saldanha – comunista ateu como Jorge – cuja biografia acabo de finalizar leitura, sentenciou: “Se macumba ganhasse jogo, Campeonato baiano terminava empatado”. Amanhã começa mais uma decisão que divide a cidade em cores. Pena que o João-sem-medo não está mais entre nós para acompanha-la. Certamente mudaria de opinião.

Prova disso tivemos no último domingo, na decisiva semifinal entre o clube da maior torcida da Boa Terra e o desafiante interiorano. A contenda se arrastou por agonizantes 88 minutos sem gol que definisse a vaga na final. O desespero tomava conta dos tricolores presentes no estádio, onde eu mesmo testemunhei as mais diferentes obsecrações, quando a dádiva, o resultado das súplicas encaminhou a pelota mansamente às redes adversárias. Cada torcedor ali teve a certeza de sua contribuição ao gol salvador, em forma de promessa ou oração, e agradeceu penitenciando-se a diversas crenças. Não resta dúvida: A fé definiu o jogo.

Não fosse a Doce Dulce da Bahia Ypiraguense [como Jorge Amado] poderiam seus fiéis postular tal feito como mais um milagre da beata. Ninguém haveria de se opor, afinal, como explicar racionalmente um prodígio?  Mãe Stella de Oxossi dá a dica: “A fé abarca a pessoa em sua totalidade. Não se chega a ela pelo intelecto”

E a abstinência de títulos fortalece a fé da fração não rubro-negra da Bahia – a fé se agiganta no jejum . Os sinais já se manifestaram [com direito a incidente flamejante] e os patuás de três cores estão mais potentes – mostram os búzios.

Amanhã tem início mais uma decisão de campeonato baiano. Dois ‘Ba-Vis’ – que se não é o maior clássico do Brasil, é da Bahia –  uma responsabilidade MUITO maior. Saldanha poderia até estar certo e macumba pode mesmo não decidir jogo. Mas por falta de sortilégio ninguém quer perder. Por isso não se espante se me encontrar com um belo mustache. Ou você acha que aquela bola de domingo entrou aleatoriamente?

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Fugindo do tema, mas não fugindo da raia, breve comentário: Como negar um pedido tão libidinoso como aquele proferido pelos lábios mais sedutores da Pindorama? Como provou Dieckman, o que é belo não merece ser desmatado.

VETA, DILMA!

                                                                                                                                                                        Alex Rolim escreve aos sábados

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