Para que é mesmo que a moça fica pelada se depois tem que dizer “Não tirei a roupa, mostrei a alma da personagem”? E pode existir alguma coisa mais moralista que isso?

Não havia de ser nada se essa não fosse apenas mais uma terrível frase a anunciar as terríveis frases de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, no qual Camila Pitanga e seus lindos lábios vivem a prostituta Lavínia, parcialmente salva dos seus pecados ao casar-se com um pastor.

Tem um momento em que ela pergunta  a um fotógrafo seu amante: “Quais são os seus perigos?”. E em outra cena o fotógrafo seu amante diz para o amigo jornalista com ares poeta: “Comigo não tem esse negócio de amor platônico, meu negócio é na carne”.

Glória a Deus não tenho boa memória e esqueci as outras pérolas. Mas mesmo assim, me digam, algum espectador pode sobreviver a esses diálogos sem querer pegar a vida de volta na bilheteria? Sei que Caetano gostou, mas eu quis mesmo foi morrer com tanta pretensão travestida de lirismo.

Se fosse caso isolado ainda tinha salvação, mas não sei, às vezes queria que nossos filmes em português do Brasil fossem mudos, para não ter que padecer de tanta vergonha alheia. É já clichê dizer que não temos bons roteiristas, mas pior que ando acreditando nessa generalização imprecisa.

Mas tenham sempre em mente, queridos meus, que de um tudo nessa vida se tira qualquer lembrança boa. Pois em um momento um palhaço pistoleiro dá um conselho nobre ao fotógrafo amante, dizendo que fuja, mas como arrependido emenda com uma lição que é bom pendurar num espelho que se veja sempre para nunca esquecer: cada si sabe de si.   Taí algo bem dito e que pode salvar vidas.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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